Durante o florescimento do barroco no século XVII, a pintora flamenga Michaelina Wautier produziu obras que, por muito tempo, foram atribuídas a artistas homens, como seu irmão mais velho e o célebre retratista Anthonis van Dyck. A qualidade das telas era considerada elevada demais para ser fruto do pincel de uma mulher, o que contribuiu para que seu nome fosse quase apagado da história por séculos.
O resgate de sua trajetória começou em 1993, quando a historiadora da arte belga Katlijne Van der Stighelen se deparou com a pintura O Triunfo de Baco no Museu de História da Arte de Viena. A tela, que retrata uma procissão caótica liderada pelo deus do vinho, já despertava suspeitas de autoria feminina, intrigando a pesquisadora pela profusão de corpos nus — algo atípico para pintoras da época, que não tinham acesso a modelos.
Após extensa investigação em registros e análises técnicas, Van der Stighelen confirmou a autoria de Michaelina, alçando-a ao panteão dos grandes nomes do barroco. Uma exposição na Royal Academy de Londres, em cartaz até 21 de junho, reúne trinta telas produzidas entre 1643 e 1659, período em que a artista tinha até 45 anos. Ela viveu mais três décadas, mas não se sabe se continuou a pintar.
Segundo Julien Domercq, curador da mostra, a variedade de temas explorados por Michaelina — incluindo uma série sobre os cinco sentidos — era um dos fatores que levavam à exclusão da possibilidade de uma mulher ser a autora. “A qualidade e a pluralidade das composições permitem concluir que ela obteve acesso ao estudo formal através do irmão, com quem dividia ateliê”, afirmou Domercq à VEJA. Ele acrescentou que o trabalho conhecido da artista já é “suficientemente impressionante”.
Outras artistas ofuscadas
O caso de Michaelina não é isolado. A italiana Artemisia Gentileschi (1593-1654) teve obras atribuídas a Caravaggio, enquanto a holandesa Judith Leyster (1609-1660) enfrentou confusão de autoria por razões comerciais: quadros creditados a homens alcançavam maior valor de mercado. A crítica da época também era severa com mulheres que expunham seu trabalho, tornando-as alvo de escárnio, como lembra a especialista Ana Paula Simioni, da USP.
No século XIX, a francesa Berthe Morisot (1841-1895) conseguiu destaque entre os impressionistas graças à sua condição financeira privilegiada e ao parentesco com Édouard Manet. Sem esses recursos, teria esbarrado nas mesmas barreiras que limitavam a participação feminina nas artes.
Pseudônimos na literatura
Na literatura, o uso de pseudônimos masculinos foi uma estratégia comum. As irmãs Brontë — Emily, Charlotte e Anne — publicaram clássicos como O Morro dos Ventos Uivantes e Jane Eyre sob os nomes Ellis, Currer e Acton Bell. Charlotte Brontë chegou a afirmar que temiam ser vistas com preconceito. A francesa Amandine Aurore Dupin adotou o nome George Sand e passou a vestir-se como homem para conseguir publicar e viver de sua obra.
A escritora Virginia Woolf abordou a trajetória das mulheres nas artes em Um Teto Todo Seu (1929), com a provocação: “Eu me arriscaria a supor que Anônimo, que escreveu tantos poemas sem assiná-los, foi muitas vezes uma mulher”. Apesar dos avanços do feminismo a partir dos anos 1970, as artistas mulheres ainda são minoria nos acervos dos grandes museus.
Com informações de Veja.