A artista Thix apresenta na galeria Casa Triângulo, em São Paulo, a exposição "Quarto de Não Dormir, Sala de Não Estar", que aborda a beleza e a dureza de sua transição de gênero. Antes identificada como homem gay, ela vem assumindo nos últimos anos a identidade de mulher trans.

Formada em Florença e Barcelona, Thix utiliza técnicas da pintura acadêmica e do barroco, com forte influência do claro-escuro de Caravaggio. Suas obras, visualmente sedutoras, carregam alta carga dramática, mas também revelam o sofrimento do processo de desconstrução e reconstrução do corpo e da identidade.

Em uma das telas, a artista aparece com o rosto enfaixado e olhos inchados, retratando o pós-operatório de cirurgias para feminilizar o rosto. Outra pintura mostra Thix segurando a cabeça decepada de um homem barbado, referência à obra "David com a Cabeça de Golias", de Caravaggio. A cabeça de sua antiga identidade também aparece servida em um prato.

Thix, de 44 anos, começou a transição após os 40. Segundo ela, antes isso não era uma possibilidade: "Nos anos 1980 e 1990 não tinha, né? Dizer 'mãe, quero ser travesti'. Jamais. Isso era uma coisa marginal." Ela cita o filósofo trans Paul B. Preciado e descreve a transição como "sair de uma prisão e entrar em outra", referindo-se à vigilância sobre a imagem feminina.

A exposição também aborda os clichês da feminilidade e a pressão estética sobre as mulheres. Uma instalação exibe vestidos rosa pendurados no teto, e uma armação de saia vitoriana é disposta como uma jaula de ferro. Há ainda uma espiral de DNA feita com unhas vermelhas gigantes, questionando a ideia de que ser mulher é uma determinação biológica.

Obras com tom de revanche e deboche também estão presentes. Na tela "Pequenos Incêndios em Terras Onde Tentaram nos Arrancar Tudo", Thix segura um veado morto sobre a cabeça enquanto o ambiente pega fogo. O animal, usado como termo pejorativo para homossexuais, aparece sem vida em outros quadros.

Gaúcha de Porto Alegre, Thix atuou em design gráfico antes de migrar para as artes visuais. Vive no Rio de Janeiro há cerca de 20 anos, onde mantém seu ateliê. Representada pela Casa Triângulo há um ano, esta é sua primeira mostra solo na galeria, composta quase totalmente por obras criadas em 2026, e a primeira vez que explora outras linguagens além da pintura.

Ao usar a estética ocidental clássica, Thix questiona quem merece ser representado nos acervos de museus. Para ela, pessoas queer merecem destaque. "A transição não é um processo isento de dor, muito pelo contrário", afirma. "Ser mulher, para mim, tem sido uma construção diária."

Com informações de Folha — Ilustrada.