A disseminação da ayahuasca para além das fronteiras amazônicas, impulsionada por práticas religiosas, terapêuticas e pelo turismo, tem intensificado a pressão sobre as plantas essenciais à sua preparação. O cipó Banisteriopsis caapi e a folha Psychotria viridis, nativos da região, apresentam sinais de escassez em algumas localidades, conforme relatos de especialistas e lideranças indígenas.
A cadeia de distribuição da bebida conecta a floresta a mercados internacionais por meio de fluxos pouco transparentes e, frequentemente, em situação de ilegalidade. Esse cenário é agravado por lacunas regulatórias e pela ausência de fiscalização efetiva, o que dificulta o controle sobre a coleta e o comércio das espécies.

Falta de dados científicos preocupa pesquisadores
Pesquisadores alertam para a carência de informações básicas sobre a distribuição, abundância e exploração das plantas. Sem esses dados, torna-se inviável definir estratégias de manejo sustentável, aumentando o risco de degradação ambiental. Não há levantamentos consolidados sobre o estoque natural ou o volume extraído, o que compromete qualquer política de proteção.
Segundo Eufran Ferreira do Amaral, da Embrapa Acre, os inventários florestais priorizam espécies madeireiras, deixando de lado o cipó e a folha. Ele destaca que o desmatamento e a coleta sem critérios têm reduzido a disponibilidade em áreas antes abundantes, forçando buscas cada vez mais distantes.

Lideranças indígenas denunciam apropriação cultural
Lideranças como Benki Piyãko, do povo Ashaninka, denunciam a transformação de saberes ancestrais em produtos de mercado. "Uma das maiores farmácias do mundo está sendo destruída", afirma. Para ele, a ayahuasca não pode ser dissociada do ecossistema que a sustenta, e o risco é que a bebida se torne apenas mais uma mercadoria.
O Instituto Yorenka Tasorentsi, fundado por Benki, articula respostas globais, como o Fórum Mundial da Ayahuasca, marcado para setembro em Girona, na Espanha. O evento busca ampliar a participação indígena nas decisões sobre o uso da bebida e discutir a governança dos saberes tradicionais.

Regulação no Acre é alvo de críticas
Em 2025, o Acre aprovou a primeira lei estadual para regulamentar a extração, transporte e uso das plantas da ayahuasca. A norma estabelece cotas diferenciadas: grupos informais podem retirar até 150 quilos de cipó e 60 quilos de folhas a cada 120 dias; entidades formalizadas têm acesso a até 1.000 quilos de cipó e 300 quilos de folhas por semestre.
No entanto, a legislação enfrenta questionamentos. O Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) apontou inconsistências, como a ausência de critérios para coleta sustentável e a possibilidade de regularização posterior de cargas, o que poderia facilitar a circulação de material de origem incerta. Além disso, a lei não exige licenciamento ambiental prévio, contrariando normas federais.
Lideranças indígenas também contestam a falta de consulta prévia, conforme previsto em acordos internacionais. O Instituto Yorenka Tasorentsi solicitou formalmente a revisão ou nulidade da lei, argumentando que sua elaboração desrespeitou os direitos dos povos originários.
Cenário jurídico internacional é fragmentado
Globalmente, a ayahuasca circula em uma zona cinzenta legal. Embora contenha DMT, substância controlada, as plantas e preparações tradicionais não são explicitamente proibidas em muitos países. Na prática, autoridades frequentemente equiparam a bebida a drogas ilícitas, resultando em apreensões e detenções.
Dados do Ayahuasca Defense Fund indicam cerca de 500 casos de apreensão e detenção em 47 países nos últimos dez anos. O advogado Jesús Alonso Olamendi relata que lideranças indígenas são especialmente afetadas, enfrentando prisões preventivas ou domiciliares ao viajar para a Europa.
Enquanto o interesse científico por psicodélicos cresce, as políticas tendem a privilegiar compostos sintéticos, ignorando os sistemas de conhecimento tradicionais. O Fórum Mundial da Ayahuasca surge como uma tentativa de reposicionar o debate a partir dos territórios e da governança indígena.
Com informações de Mongabay Brasil.