O futebol praticado por mulheres no Brasil é frequentemente tratado como novidade no debate público, mas essa percepção decorre de um longo processo de silenciamento, e não de ausência histórica. A exclusão foi formalizada pelo Decreto-Lei 3.199, de 1941, que proibiu mulheres de praticar modalidades consideradas incompatíveis com sua natureza, entre elas o futebol. A interdição legal perdurou até 1979, mas seu efeito mais duradouro foi o apagamento de memória e a falta de registros oficiais.
Pesquisas etnográficas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador mostram que o futebol feminino nunca deixou de existir, mesmo na clandestinidade. Times, campeonatos e redes de apoio persistiram, conectando jogadoras por meio de circuitos futebolísticos e afetivo-sexuais. Para muitas mulheres, o jogo tornou-se espaço de sociabilidade, resistência e enfrentamento à violência.
Nas últimas décadas, a luta se deslocou para o campo da linguagem e da narrativa. A cobertura midiática, os registros estatísticos e as biografias tornaram-se centrais para o reconhecimento. O futebol é entendido como uma linguagem que estabelece quem pode jogar e sob quais condições. Entrar em campo significa reivindicar lugar numa gramática coletiva.
O futebol foi historicamente associado à masculinidade, à força e à virilidade, consolidando-se como território masculino. Mulheres que jogam foram descritas como masculinizadas ou inadequadas. A pergunta nunca foi apenas se sabiam jogar, mas se seus corpos eram compatíveis com o imaginário do esporte.
Episódios recentes, como declarações misóginas contra uma árbitra em competição da Federação Paulista de Futebol e ataques a jogadoras, evidenciam a resistência à legitimidade feminina. Quando a autoridade de uma mulher é questionada por seu sexo, o campo segue sendo entendido como naturalmente masculino. A violência verbal atua como mecanismo disciplinador, lembrando que a presença feminina é tolerada, mas não plenamente reconhecida.
Ao jogar, as mulheres deslocam sentidos estabilizados, desafiando a ideia de que força e técnica pertencem a um único gênero. Nomear jogadoras, registrar estatísticas e narrar partidas são práticas centrais para transformar presença em reconhecimento. Jogadoras de primeira divisão na Argentina e no Brasil têm se articulado a movimentos feministas, usando redes sociais e notas públicas para enfrentar violência.
A categoria “futebol feminino”, embora necessária, revela tensões: garante visibilidade, mas reforça a ideia de um futebol universal masculino. Gênero nunca atua isoladamente; raça, classe e território atravessam as experiências. Ofensas a mulheres negras, lésbicas ou periféricas carregam camadas adicionais de violência.
Pensar o futebol como linguagem ajuda a compreender que a exclusão das mulheres sempre foi política: controlar quem participa de uma das principais formas de produção de sentido da cultura brasileira. Reconhecer o futebol praticado por mulheres é reconhecer direito à linguagem, ao jogo e à democracia. A história do futebol no país é maior, mais diversa e mais complexa do que aquela que aprendemos a repetir.
Com informações de Revista Cult.