O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral afirmou que a nova proposta de tarifa dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros tem carga política e visa à abertura de mercados de interesse estratégico norte-americano. Segundo ele, há uma contradição na medida, uma vez que a relação bilateral é deficitária para o Brasil e as tarifas aplicadas pelos EUA aos principais produtos brasileiros são maiores do que as praticadas pelo mercado brasileiro.
Barral, que atuou no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entre 2007 e 2011, disse que a nova tarifa integra uma estratégia dos EUA para pressionar pela entrada em novos setores. “Há uma contradição aparente, mas ela é politicamente útil para os EUA. O fato de a relação ser deficitária para o Brasil não impede Washington de sustentar sua narrativa, mas para pressionar por abertura em setores específicos de interesse norte-americano”, declarou ao Poder360.
Para o advogado, a medida não representa propriamente uma incoerência, mas sim dois planos distintos: “No plano sistêmico, o Brasil precisa mesmo avançar em abertura e competitividade; e, no plano bilateral, a acusação dos EUA é frequentemente instrumentalizada para ampliar poder de negociação”.
A nova tarifa do governo de Donald Trump (Partido Republicano) vem acompanhada de uma mudança de justificativa. Em julho de 2025, ao abrir investigação comercial, os norte-americanos alegavam que o Brasil era protecionista e superavitário na relação com os EUA. No relatório divulgado nesta semana, o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) concentra as justificativas em questões como uso de trabalho forçado, desvantagens causadas pelo Pix, decisões judiciais sobre redes sociais e falhas no combate ao desmatamento. Não há menções a protecionismo nem a déficit comercial. São citadas apenas duas práticas tarifárias: a adoção de taxas preferenciais em acordos bilaterais com Índia e México, que prejudicariam exportadores norte-americanos, e a tarifa de 18% aplicada pelo Brasil ao etanol.
Levantamento do Poder360 mostra que o Brasil não taxa nenhum dos 10 produtos norte-americanos mais importados pelo mercado brasileiro em 2026, enquanto os EUA taxam 4 das 10 mercadorias brasileiras mais importadas pelo país. “Isso mostra que a acusação de ‘protecionismo’ contra o Brasil tem uma base seletiva, mas também uma dose importante de retórica política. Ou seja: a crítica americana não se sustenta bem se for tratada como comparação linear de tarifas. O ponto central é que tarifa nominal não é sinônimo de abertura real”, afirmou Barral.
Mesmo com uma economia teoricamente mais aberta, os EUA aplicam tarifas relevantes em setores sensíveis e combinam tarifas com medidas regulatórias e barreiras ligadas à segurança nacional. “A comparação correta não é apenas ‘quem tarifa mais’, mas como cada país estrutura sua política comercial. Os EUA, em certas áreas, protegem mais por instrumentos setoriais e por uma lógica de poder de mercado”, disse o ex-secretário, que também atuou no Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul e na OMC (Organização Mundial do Comércio).
A nova tarifa de 25% proposta pelo governo norte-americano deixou de fora produtos estratégicos para o mercado dos EUA, como carnes, frutas, minerais, café, equipamentos e medicamentos. Barral avalia que a extensa lista de isenções é mais um indício de que se trata de uma medida de pressão política, e não exclusivamente econômica. “Os EUA costumam desenhar essas medidas para atingir setores sensíveis e maximizar poder de barganha, mas, ao mesmo tempo, preservam exceções para não gerar custo excessivo para a própria economia norte-americana. Em outras palavras: eles querem pressionar os parceiros, mas evitam desorganizar suas próprias cadeias produtivas, encarecer demais insumos ou criar reação doméstica de indústrias locais que dependem desses produtos”, declarou.
Com informações de Poder360.