O ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento (Republicanos-BA) e empresas a ele vinculadas receberam R$ 11 milhões do Banco Master nos últimos dois anos, conforme declarações de Imposto de Renda da instituição financeira enviadas pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado do Senado. A informação, publicada inicialmente pelo Intercept Brasil nesta terça-feira (16), dá materialidade fiscal a uma sequência investigativa que envolve a regulamentação do crédito consignado do Auxílio Brasil, o partido Republicanos, o presidente da Câmara Hugo Motta e o grupo empresarial de Daniel Vorcaro.

R$ 11 milhões: o fluxo financeiro

Dos recursos repassados pelo Master, R$ 773,3 mil foram destinados diretamente à pessoa física de Ronaldo Bento. A maior parcela, de R$ 6,2 milhões, foi para a Meta Consultoria, empresa da qual o ex-ministro é sócio. A Mettacard Administradora de Cartões — companhia que Bento administrou após deixar o ministério — recebeu R$ 2,98 milhões no período em que esteve sob seu comando. Já a CLT Participações, associada à Meta na criação da Beta Serviços Financeiros, recebeu R$ 1,2 milhão.

  • R$ 773,3 mil – pessoa física de Ronaldo Bento
  • R$ 6,2 milhões – Meta Consultoria
  • R$ 2,98 milhões – Mettacard Administradora de Cartões
  • R$ 1,2 milhão – CLT Participações

A assessoria de Ronaldo Bento declarou ao Intercept que os pagamentos se referem à remuneração por trabalho de assessoria prestado à instituição financeira, que os valores foram declarados ao fisco e que não há irregularidade nas operações citadas.

O percurso do consignado: do ministério ao mercado

A estruturação do crédito consignado para beneficiários do Auxílio Brasil começou no Congresso Nacional. Hugo Motta (Republicanos-PB), atual presidente da Câmara dos Deputados, foi autor da emenda que tornou permanente o benefício extraordinário do programa, consolidando o piso de R$ 400. A mesma tramitação permitiu que o benefício complementar fosse usado como base para o consignado, autorizado pela Medida Provisória 1106/22.

Com o terreno legislativo preparado, Ronaldo Bento assumiu o Ministério da Cidadania e, em 26 de setembro de 2022, assinou a Portaria MC nº 816, que estabeleceu os procedimentos operacionais para a consignação de parcelas de empréstimos nos benefícios do Auxílio Brasil, incluindo a habilitação de instituições financeiras e a averbação de contratos.

Após a mudança de governo, Bento migrou para o setor privado. A Fórum documentou que ele se tornou diretor de um braço do Banco Master e assumiu a administração da Mettacard, empresa licenciada pelo Master que atuava com cartão de benefícios consignado. Em seguida, ganhou cargo no Banco Pleno, instituição que abrigava executivos ligados a Daniel Vorcaro e que foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em fevereiro de 2026.

Conexão partidária e o elo com Hugo Motta

Depois de deixar o governo Bolsonaro, Ronaldo Bento se filiou ao Republicanos. O registro oficial da legenda, datado de 20 de junho de 2023, apresenta Bento como ex-ministro e servidor público de carreira. A filiação o aproximou de Hugo Motta, que já havia atuado na etapa legislativa que ampliou o piso do Auxílio Brasil. Registros partidários mostram Motta no ato de assinatura da ficha de filiação do ex-ministro.

Essa conexão não configura irregularidade, mas organiza a sequência política: Motta atuou na emenda que ampliou a base do programa; Bento regulamentou a operação do consignado; depois, Bento entrou no Republicanos e migrou para empresas do ecossistema Master.

Vorcaro e a hospedagem de Motta em Lisboa

A presença de Hugo Motta no caso ganhou novo peso com outra revelação da Fórum. Segundo relatório da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, Daniel Vorcaro pagou a hospedagem de Hugo Motta em Lisboa durante o evento jurídico Gilmarpalooza de 2024. O banqueiro também bancou a hospedagem do senador Ciro Nogueira (PP-PI) no mesmo período.

Em manifestação à imprensa, Motta afirmou não ver problema no pagamento, disse que se tratava de evento corporativo e declarou ter tranquilidade sobre suas relações.

Auditoria da CGU aponta pico eleitoral e descontos indevidos

A Controladoria-Geral da União (CGU) analisou a política pública do crédito consignado do Auxílio Brasil e constatou que 93% dos contratos foram firmados em outubro de 2022, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial. A auditoria apontou cerca de R$ 8 milhões em descontos indevidos sobre benefícios de famílias do programa, impactando ao menos 56 mil famílias.

O órgão também registrou ausência de informações sobre estudos e análises que embasassem a regulamentação operacional do consignado. Além disso, a taxa de juros foi fixada em 3,5% ao mês sem justificativa identificada, enquanto a média dos consignados no período era de 2,13% ao mês. O relatório foi encaminhado à Justiça Eleitoral para análise de possível uso eleitoral do benefício.

Consequências políticas

As reportagens da Fórum sobre os vínculos de Ronaldo Bento com empresas do ecossistema Master levaram o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) a apresentar requerimento para ouvir o ex-ministro na CPMI do INSS. A revelação dos R$ 11 milhões acrescenta dado fiscal à trilha investigativa, consolidando o desenho de uma porta giratória entre a política social e o mercado de crédito, com personagens que circularam entre o governo, o Congresso e o setor privado.