O ex-ministro da Cidadania do governo Bolsonaro, Ronaldo Vieira Bento, e empresas a ele vinculadas receberam R$ 11 milhões do Banco Master entre 2023 e 2025, segundo a declaração de Imposto de Renda da instituição financeira enviada pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado do Senado. O montante foi repassado diretamente pelo banco de Daniel Vorcaro para o ex-ministro e para companhias nas quais ele atuou como administrador ou sócio.
Bento foi ministro da Cidadania de março a dezembro de 2022, período em que regulamentou e operacionalizou o empréstimo consignado para beneficiários do Auxílio Brasil. Após deixar o cargo, assumiu a presidência do Banco Pleno e a administração da Mettacard Administradora de Cartões, ambas ligadas ao conglomerado do Banco Master. O Banco Pleno passou por liquidação extrajudicial determinada pelo Banco Central em fevereiro de 2025, com indisponibilidade de bens de Bento e outros ex-administradores.
Pagamentos do Master
Do total de R$ 11 milhões, R$ 773,3 mil foram pagos diretamente a Bento como pessoa física. O restante foi destinado a empresas com as quais ele mantinha relação societária ou administrativa. A maior fatia, R$ 6,2 milhões, foi para a Meta Consultoria, empresa da qual Bento é sócio, criada em junho de 2023 e sediada em Brasília. Entre novembro de 2024 e março de 2025, a Meta Consultoria se associou à CLT Participações para formar a Beta Serviços Financeiros; nesse período, a CLT recebeu R$ 1,2 milhão do Master.
Enquanto administrava a Mettacard, de agosto de 2024 até sua renúncia em 10 de dezembro de 2024, a empresa recebeu R$ 2,98 milhões do Banco Master. A Mettacard oferecia cartões de benefícios consignados para servidores públicos, aposentados e pensionistas, e possuía convênios com prefeituras de sete municípios, além de institutos de previdência e governos estaduais. Em novembro de 2024, o governo do Paraná bloqueou novos descontos em folha de pagamento dos cartões da Mettacard e da Credcesta, outra licenciada do Master, diante de suspeitas de fraude. O Sindicato Estadual dos Servidores Públicos da Agricultura, Meio Ambiente, Fundepar e Afins (Sindiseab) relatou o caso de um servidor que tomou R$ 1,2 mil em empréstimo e passou a dever cerca de R$ 8 mil.
Blindagem no Congresso
Apesar de ter sido mencionado na CPMI do INSS e na CPI do Crime Organizado, Bento não foi investigado. O deputado Rogério Correia (PT-MG) apresentou requerimento de convocação na CPMI do INSS em dezembro de 2024, mas a mesa diretora não o pautou, e a comissão encerrou em março de 2025 sem votar o relatório. “Ronaldo Bento foi um ministro tampão. Foi escolhido a dedo para fazer um trabalho sujo na véspera das eleições”, afirmou Correia ao Intercept, referindo-se à liberação do consignado do Auxílio Brasil.
Na CPI do Crime Organizado, um requerimento do senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) foi aprovado, mas Bento não foi ouvido antes do fim da comissão em abril de 2025. O senador Humberto Costa (PT-PE) chegou a apresentar pedido de quebra de sigilos de Bento, mas retirou o requerimento na mesma reunião. A assessoria de Costa informou que a retirada decorreu de “acordo verbal entre governo e oposição” e que vários requerimentos foram retirados para “centrar numa pauta comum”.
Autorização de empréstimos consignados do Auxílio Brasil
A autorização para o consignado do Auxílio Brasil foi feita pela Medida Provisória 1.106/22, de março de 2022, e regulamentada na gestão de Bento após a sanção da Lei 14.431/22, em agosto de 2022. À época, Bento defendeu a medida como forma de ajudar os mais pobres. No entanto, relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) de agosto de 2023 apontou R$ 8,4 milhões em descontos indevidos apenas em contratos com a Caixa Econômica Federal entre novembro de 2022 e março de 2023. Segundo a CGU, 93% dos contratos foram firmados em outubro de 2022, durante a gestão de Bento e antes do segundo turno das eleições. Cerca de 3,6 milhões de pessoas contrataram o empréstimo, que tinha taxa máxima de 3,5% ao mês.
Procurado, Ronaldo Vieira Bento afirmou, por meio de sua assessoria, que os pagamentos recebidos do Master são “remuneração do trabalho na assessoria da instituição financeira”, declarada ao fisco e compatível com o mercado, e que “não há qualquer irregularidade”. O Intercept também contatou assessorias de Jair Bolsonaro, Mettacard, CLT Participações e Meta Consultoria, mas não obteve retorno. Daniel Vorcaro, dono do Master, informou que não se manifestaria sobre o tema.