Antigos integrantes da milícia que controlava a comunidade de Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, se aliaram ao Comando Vermelho (CV) para tentar tomar o território, informou O Globo nesta sexta-feira (19). A região ficou conhecida nacionalmente por ter abrigado Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, durante o escândalo das rachadinhas.
Segundo a apuração, ex-paramilitares que antes atuavam no controle da área passaram a colaborar com a facção criminosa, o que pode acelerar a perda de domínio de um dos territórios mais simbólicos do paramilitarismo no Rio. A ofensiva ocorre em meio a uma escalada recente de tensão, com relatos de ruas bloqueadas, comércio fechado, toque de recolher e operações policiais. A Polícia Civil também investiga a existência de cemitérios clandestinos na região, usados para ocultação de corpos em áreas de mata.

Histórico de domínio paramilitar
Rio das Pedras é considerada um dos berços das milícias cariocas. A comunidade já havia sido mencionada em investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) como território sob controle paramilitar. Uma denúncia do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) descreveu a atuação de uma organização criminosa nas comunidades de Rio das Pedras, Muzema e adjacências. Segundo o documento, o grupo atuava como poder paralelo ao Estado, envolvendo-se com grilagem, construção e venda ilegal de imóveis, receptação de carga roubada, posse e porte ilegal de armas, extorsão de moradores e comerciantes, cobrança de taxas, ocultação de bens por meio de laranjas, falsificação de documentos públicos, propina a agentes públicos, agiotagem e ligações clandestinas de água e energia.
O território também foi associado a suspeitas sobre prédios ilegais ligados à milícia. Em 2020, reportagem do Intercept Brasil, baseada em documentos de uma investigação sigilosa, apontou que recursos atribuídos ao esquema de rachadinha de Flávio Bolsonaro teriam irrigado construções em áreas como Rio das Pedras e Muzema. O MPRJ contestou as informações na época, mas confirmou a existência de investigação contra o então deputado estadual.
Ligação com o caso Queiroz e rachadinha
Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), se refugiou em Rio das Pedras após as primeiras denúncias do esquema de rachadinha, que envolvia suspeitas de desvio de parte dos salários de assessores. O senador sempre negou irregularidades. A denúncia apresentada pelo MPRJ contra Flávio, Queiroz e outros investigados foi rejeitada e arquivada pelo Tribunal de Justiça do Rio, após decisões que anularam provas usadas no processo.
A presença de Queiroz na comunidade, ainda em 2019, expôs a proximidade entre o submundo da milícia carioca e personagens do bolsonarismo fluminense. Rio das Pedras já era tratada em investigações como território sob domínio paramilitar.
Disputa armada e consequências
A aliança de ex-milicianos com o Comando Vermelho altera a correlação de forças na região, pois entrega à facção conhecimento interno sobre rotas, lideranças, pontos de cobrança, esconderijos, funcionamento do comércio local e mecanismos de controle da comunidade. Na prática, a disputa transforma moradores em reféns de dois modelos de domínio armado: de um lado, a milícia, historicamente associada à cobrança de taxas, grilagem e exploração de serviços; de outro, o tráfico, que tenta ampliar seu território em uma área estratégica da Zona Oeste.
A guerra entre CV e milícia já havia ganhado repercussão nacional em 2023, quando a execução de médicos na Barra da Tijuca foi associada à disputa por territórios. Na ocasião, criminosos teriam confundido o médico Perseu Ribeiro Almeida com Taillon de Alcântara Pereira Barbosa, apontado como liderança da milícia de Rio das Pedras. Também morreram Marcos de Andrade Corsato e Diego Ralf Bomfim, irmão da deputada federal Sâmia Bomfim. Daniel Sonnewend Proença sobreviveu.
O avanço do CV sobre Rio das Pedras evidencia a falência do modelo de controle armado tolerado por anos em áreas da Zona Oeste. A milícia se apresentava como barreira contra o tráfico, mas o caso mostra o inverso: ex-milicianos agora atuam como peça operacional do Comando Vermelho na tentativa de tomar o território. Enquanto a disputa avança, moradores seguem submetidos ao medo, ao fechamento de ruas, às ordens de criminosos e à ausência concreta do Estado. A troca de comando armado não altera a lógica central: Rio das Pedras continua sob ameaça de grupos que disputam, com fuzis, a vida econômica e cotidiana da comunidade.