Em artigo publicado na Folha, um cronista esportivo que participou como jogador das Copas de 1966 e 1970 analisa aspectos táticos do futebol atual e faz críticas ao filme "Brasil 70 — A Saga do Tri", da Netflix. O autor, que é formado em medicina, aborda as transformações do esporte e as discussões sobre esquemas táticos da seleção brasileira.
Segundo ele, a atual época é marcada pelo deslumbramento consigo mesmo, pelo espetáculo, pelo enorme desenvolvimento tecnológico, por grandes transformações no comportamento social, pelo exagero, pela velocidade das coisas e pelas maciças propagandas comerciais, especialmente em uma Copa do Mundo.
O cronista observa que a seleção brasileira atual tem quatro titulares do meio para frente (Casemiro, Bruno Guimarães, Vinicius Junior e Raphinha), com alguns jogadores disputando as outras duas vagas em diferentes posicionamentos. Ele interpreta a declaração de Ancelotti de que o time jogará no 4-4-2 como referência à fase defensiva, com quatro jogadores protegendo os quatro defensores — conceito antigo, presente na maioria das equipes atuais, iniciado com a seleção inglesa campeã mundial em 1966.
O ex-jogador afirma que muitas coisas vão e voltam no futebol, mas que o jogo hoje é muito mais veloz, intenso e compacto, com equipes marcando e atacando com muitos jogadores. Ele considera obsoletas as frequentes discussões sobre a seleção brasileira jogar no 4-4-2, 4-2-4 ou 4-3-3, pois os jogadores não param de correr e, a cada instante, forma-se um sistema tático diferente. Para ele, não há diferença entre 4-2-4 e 4-4-2, pois depende do momento do jogo.
Outra discussão que considera desnecessária é se o Brasil deve jogar com quatro atacantes ou com um terceiro jogador no meio campo. Ele questiona se Matheus Cunha é um armador ou um atacante, já que marca no meio campo e chega à frente.
O autor relembra que, antes da Copa de 1970, o Brasil jogava com dois no meio campo (Clodoaldo e Gerson), dois atacantes pelo centro (Pelé e Tostão) e dois pontas abertos e agressivos. Zagallo, ao assumir o comando, trocou o ponta esquerda Edu por mais um jogador de meio campo (Rivellino). As discussões eram as mesmas de hoje: se o time deveria jogar com três no meio campo ou com quatro atacantes (4-3-3 ou 4-2-4) e se deveria ter um centroavante clássico (Roberto) ou um meia atacante (Tostão) ao lado de Pelé. Zagallo dizia, como muitos defendem hoje, que a equipe não poderia ter apenas dois no meio campo contra as fortes seleções europeias.
O cronista afirma que a pressão feita por Pelé e outros jogadores para Zagallo escalá-lo não foi explícita como mostra o filme "Brasil 70 — A Saga do Tri". Segundo ele, se houve pressão, foi silenciosa, pelo olhar, nas entrelinhas e em conversas ao pé do ouvido. Gerson, que jogava no Botafogo sob o comando de Zagallo, conversava muito com o técnico. O autor nega ter ido até Zagallo para dizer que deveria ser titular, como retratado no filme. Diferentemente do que é mostrado, Pelé era um atleta consciente, equilibrado, bem-humorado e muito forte emocionalmente — por isso e pelas condições físicas e técnicas era o maior da história.
Ele considera o filme bem feito, prazeroso de se ver, emocionante, com ótimos atores e boa reprodução dos principais lances e gols, mas ressalta que há muitas cenas inventadas e sensacionalistas para dramatizar uma grande conquista esportiva.
Por fim, o autor presta solidariedade à família de Leivinha, ídolo do Palmeiras e seu companheiro de ataque na seleção brasileira campeã da Copa das Confederações em 1972, no Maracanã. Leivinha ocupou o lugar de Pelé, que havia se despedido da seleção.
Com informações de Folha — Esporte.