Em 1997, as Meninas Cantoras de Petrópolis participaram de uma edição especial do programa Planeta Xuxa, que celebrava o Natal e a gravidez da apresentadora. No palco, o coral, formado por garotas de 9 a 15 anos vestidas como bonecas vivas, abriu espaço para a passagem do ator Luciano Szafir. Na época, o grupo estava no auge da fama, com aparições em programas como A Praça é Nossa e Fantástico, gravações com músicos como Ivan Lins e Simone, e apresentações por todo o país. O produtor George Martin, que trabalhou com os Beatles, disse que as meninas se apresentavam “como se fossem anjos”.

Para Aline Barino, ex-integrante, o coral representava um “mundo mágico”. As meninas usufruíam de uma liberdade que não tinham em casa e recebiam autorização dos pais e da escola para faltar às aulas e viajar. As vagas no grupo – entre 30 e 40, dependendo da temporada – tornaram-se cobiçadas em Petrópolis, cidade na Região Serrana do Rio de Janeiro. A seleção era concentrada nas mãos do maestro e professor Marco Aurélio Xavier, que fundou o coral em 1976, aos 24 anos, num colégio católico. Hoje com 74 anos, Xavier justificava o grupo exclusivamente feminino “porque em 2 mil anos as mulheres foram proibidas de cantar”.

Disciplina rígida e humilhações

Em meio à disciplina severa dos ensaios, as meninas eram alvo de cobranças comparadas a treinadores esportivos e professores de balé perfeccionistas. Cristina Fibe, em reportagem da revista piauí, narra situações dolorosas. O decálogo disciplinar do maestro proibia as meninas de se aproximar de celebridades nos camarins. Durante um ensaio longo antes de gravar um CD, Xavier as proibiu de se sentar por cerca de quatro horas. Uma ex-integrante, exausta, fingiu coçar a perna ou amarrar o tênis para conseguir dobrar os joelhos. “Ele me pegou pelo ombro e me jogou no chão”, conta. As meninas tinham medo até de pedir para ir ao banheiro; algumas molhavam a própria roupa. “Era melhor passar vergonha em público do que enfrentar o maestro e dizer que precisava fazer xixi”, recorda Barino.

Abuso sexual e disputa por atenção

Uma ex-integrante que participou do grupo entre meados dos anos 1990 e o início dos 2000 relata que o maestro, ao levá-la para casa, parava o carro em ruas escuras e abusava sexualmente dela quando a garota ainda não havia completado 14 anos. “Pegação, mesmo, assim, sério”, descreve. A troca de carinhos era constante, e a disputa pela atenção do mestre – conhecido pelas oscilações de humor e gritos – tornava-se uma forma de garantir lugar especial e melhor tratamento. Nas viagens de ônibus, algumas meninas que não conseguiam sentar ao lado de Xavier ou em seu colo ficavam à sua volta, fazendo cafuné na cabeça dele.

A escritora e jornalista Carla Magno, que integrou o coral entre 12 e 13 anos, conta que a primeira vez que tomou consciência de algo estranho foi numa dessas viagens: “Durante a noite, ele pegou a minha mão e botou em cima do pênis dele. Eu nunca tinha encostado num pênis, evidentemente. Eu era uma criança.”

Repercussão e silêncio do maestro

A piauí ouviu dezessete mulheres, hoje entre 24 e 60 anos, que participaram do coral. Todas contaram suas histórias pela primeira vez, em entrevistas gravadas presenciais ou por vídeo. Procurado por telefone no dia 28 de abril, Xavier atendeu de forma solícita, mas após saber que a reportagem tratava de acusações de ex-coralistas, disse que daria entrevista no dia seguinte. Em vez disso, bloqueou o contato no Instagram e no WhatsApp. Hoje aposentado, ele segue vivendo em Petrópolis.