O ex-diretor do Banco Central (BC) Paulo Sérgio Neves de Souza alertou o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, de que o mercado financeiro estava atribuindo a ambos a autoria da chamada “emenda Master”, proposta que elevava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). A informação consta em mensagens de WhatsApp obtidas pela Polícia Federal e divulgadas pela Folha.

A emenda e seus desdobramentos

A emenda foi apresentada em 2024 pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) e posteriormente rejeitada. Conforme a investigação, o texto reproduzia integralmente uma proposta elaborada pelo Banco Master. O banco de Vorcaro tinha como estratégia a venda de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com alta remuneração, usando a cobertura do FGC como atrativo para captar recursos.

Em conversa no dia 13 de agosto de 2024, o ex-diretor jurídico do banco, Luiz Rennó, disse a Vorcaro: “Vc sextuplica seu negócio. Bora”, demonstrando expectativa quanto à aprovação da medida. Vorcaro, por sua vez, demonstrava interesse nos impactos positivos sobre a instituição.

Diálogos e acusações

No dia 14 de agosto de 2024, um dia após a apresentação da emenda no Senado, Paulo Sérgio escreveu a Vorcaro: “Mercado colocando a conta dessa MP em você [Vorcaro]”. O ex-diretor do BC questionou se a repercussão poderia aumentar. Vorcaro respondeu que se tratava de uma emenda e que “muita gente achando positivo”, exceto os grandes bancos. Ele considerava improvável que o caso reverberasse ainda mais.

Em seguida, Vorcaro afirmou: “Não fui eu quem pedi”. Paulo Sérgio então replicou: “Estão jogando também no Roberto. É amigo do senador e esteve com ele numa festa recente”, referindo-se a Roberto Campos Neto, então presidente do BC. Mais adiante, Vorcaro disse que “tinha pedido lá atrás algo do tipo [ampliação da cobertura do FGC]”, mas que “a turma vendo o movimento dos grandes bancos decidiu fazer”. Ele acrescentou: “Eu não teria entrado nessa briga agora”, “só no ano que vem”.

Posicionamento de Campos Neto e do BC

Em nota, a assessoria de Campos Neto afirmou que o BC atuou institucionalmente contra a emenda por determinação do próprio presidente. De acordo com a nota, Campos Neto “somente tomou conhecimento da existência da tal emenda por meio do diretor Renato Gomes e, imediatamente, determinou que houvesse uma força-tarefa de diversas áreas do banco para que fundamentassem uma manifestação técnica contra a proposta”, alinhada à posição da Febraban (Federação Brasileira de Bancos). A nota acrescenta que o BC trabalhou de forma emergencial com o FGC e que Campos Neto tratou do tema com senadores, como o relator Plínio Valério, sendo contra a emenda. “Portanto, não procede qualquer ilação de que Roberto Campos Neto ou o Banco Central tenham apoiado a chamada 'emenda Master'”, concluiu.

Investigação em curso

A defesa de Paulo Sérgio informou que aguarda acesso às conversas obtidas pela PF para verificar o contexto e se manifestar. As investigações apontam que Paulo Sérgio prestava consultoria estratégica a Vorcaro, orientando sobre a atuação do BC em processos administrativos, sugerindo argumentos para reuniões e revisando relatórios. Ele também teria funcionado como interlocutor interno dos interesses do banco, fornecendo informações sobre procedimentos e antecipando movimentações.

Há indícios de recebimento de vantagens indevidas: mensagens sugerem que Vorcaro teria custeado serviços para uma viagem de Paulo Sérgio a parques temáticos em Orlando, nos Estados Unidos. Além disso, apuração interna do BC detectou indícios de que Paulo Sérgio simulou a venda de um sítio em Minas Gerais para uma empresa controlada por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, para ocultar recebimento de propina do Banco Master ou de pessoas ligadas ao grupo.

As investigações também mencionam um núcleo informal chamado “A Turma”, que monitorava e pressionava adversários do banqueiro ou pessoas ligadas às apurações sobre o banco.