Jônathas Assunção Salvador Nery de Castro, servidor público que exerceu o cargo de secretário-executivo da Casa Civil durante os governos Bolsonaro e atuou como braço direito dos ministros Luiz Eduardo Ramos e Ciro Nogueira, foi um dos 17 alvos da Operação Sem Refino, deflagrada pela Polícia Federal na última sexta-feira (15). A investigação apura um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, tendo como foco central a Refit, refinaria controlada pelo empresário Ricardo Magro.
Autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a decisão de 87 páginas cita transações financeiras atípicas realizadas por Jônathas. De acordo com o relatório da PF, no dia 17 de março de 2025, o ex-assessor abriu a empresa Sary Consultoria e Participações Ltda, com capital social de apenas mil reais. Poucos dias depois, a empresa movimentou valores expressivos: recebeu 765,7 mil reais da Refit, 382,8 mil reais da Roar Inovação, 320,3 mil reais da Fera Lubrificantes e 62,5 mil reais da Flagler — empresas que, segundo a investigação, pertencem ao conglomerado de Magro.

A PF afirma que os valores creditados na Sary Consultoria foram rapidamente transferidos para Jônathas. “Os valores creditados foram rapidamente transferidos diretamente ao próprio beneficiário final Jônathas Assunção Salvador Nery de Castro, cerca de R$ 1.325.000,00”, diz o relatório. Para os investigadores, o caso se encaixa no padrão de “empresa de passagem”, que existe apenas no papel e serve para movimentar dinheiro. A Sary Consultoria, segundo a PF, não apresenta despesas operacionais compatíveis — como folha de pagamento ou custos técnicos.
Laços políticos e relação com Ciro Nogueira
A decisão de Moraes reproduz trechos do relatório da PF que destacam os vínculos políticos de Jônathas, descrito como “principal auxiliar do então ministro da Casa Civil, o atual senador Ciro Nogueira, a quem estava diretamente subordinado”. Embora o contexto dessa afirmação não seja detalhado, não é a primeira vez que Ciro Nogueira é associado aos negócios de Ricardo Magro. O senador e o empresário mantêm relação próxima, tendo participado juntos de um evento em Nova York em maio de 2024, conforme revelou reportagem da piauí. Meses antes, Ciro apresentou no Senado uma emenda a um projeto de lei que puniria “devedores contumazes” — empresas com grandes dívidas tributárias. As exceções propostas por ele foram apelidadas de “emendas Refit” por parlamentares e técnicos, por supostamente beneficiarem Magro, considerado atualmente o maior sonegador do país.
Trajetória de Jônathas na administração pública e na Petrobras
Jônathas, de 42 anos, teve uma carreira administrativa diversificada em Brasília. Durante os governos petistas, ocupou cargos nos ministérios da Indústria e da Integração Nacional. Na gestão de Michel Temer, tornou-se diretor da secretaria responsável pelas privatizações, onde trabalhou próximo a Tarcísio de Freitas, atual governador de São Paulo. No governo Bolsonaro, foi nomeado secretário-executivo da Casa Civil em 2021, tornando-se o responsável pelo pagamento das emendas parlamentares, incluindo o orçamento secreto. Manteve a função mesmo após a substituição do ministro Ramos por Ciro Nogueira.
Em 2022, por influência de Nogueira, Jônathas foi indicado e aprovado para o Conselho de Administração da Petrobras, apesar de parecer desfavorável do Comitê de Elegibilidade da estatal, que apontava risco de conflito de interesses. No conselho, ele atuou como interlocutor de Ciro Nogueira, passando a ter acesso às principais decisões estratégicas da empresa, como a política de preços.
Atuação como lobista da Refit
Após a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, Jônathas deixou o serviço público e foi contratado por Ricardo Magro para cuidar das “relações governamentais e institucionais” da Refit, ou seja, como lobista. Ele mantém trânsito no Senado, especialmente com os senadores Davi Alcolumbre (União-AP) e Marcos Rogério (PL-RO), ambos com interesses no setor. Segundo apurou a piauí, quando a Agência Nacional do Petróleo (ANP) suspendeu as atividades da Refit, amigos de Jônathas manifestaram preocupação em conversas com integrantes do governo. A interdição permanece vigente.
Embora sua atuação na Refit seja conhecida em Brasília, Jônathas mantém perfil discreto. Registros de seu vínculo com a empresa não são facilmente encontrados na internet, mas a piauí obteve três e-mails em que ele convida diretores da ANP para uma visita técnica à Refit, no Rio de Janeiro, usando o endereço jonathas.castro@fitpar.com.br — a Fitpar é uma empresa de Ricardo Magro. As mensagens são de agosto de 2024.
Operação Sem Refino e o alcance do esquema
A Operação Sem Refino mira uma organização criminosa estruturada em torno da Refit, acusada pela PF de usar distribuidoras de combustível, importadoras, factorings, fundos de investimento, holdings e offshores para ocultar receitas, lavar dinheiro, sonegar tributos e fraudar a cobrança de ICMS. A refinaria, segundo os investigadores, era apenas a face visível de um esquema maior.
Além de Jônathas, a operação incluiu outros alvos, como o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), que também foi alvo de mandado de busca e apreensão. Segundo a PF, Castro agiu com “leniência” e facilitou “a criação de um ambiente propício” para a prática de crimes por Magro. Também foram alvos o ex-procurador-geral do estado do Rio Renan Saad, o ex-presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) Renato Jordão Bussiere, o desembargador Guaraci de Campos Vianna, ex-integrantes da Secretaria de Fazenda do Rio e até servidores da PF. A investigação aponta que estruturas estatais foram usadas para beneficiar a Refit e protegê-la de punições.
O caso conecta duas dimensões do poder de Ricardo Magro: a rede empresarial e financeira, com offshores e fundos de investimento, e a engrenagem institucional, com agentes públicos acusados de favorecer seus interesses. Jônathas Castro, ex-braço direito de Ciro Nogueira e lobista da Refit, aparece como ponto de contato entre essas duas frentes.