Erasmo Braga Coutinho Vieira, que morreu em 22 de abril aos 97 anos durante uma cirurgia no fêmur após cair ao sair para caminhar, teve uma vida marcada pela corrida. Natural de Fundão (ES), ele foi engraxate na estação da Luz e na praça do Patriarca, em São Paulo, e mais tarde trabalhou como cortador de cana. Aos 14 anos, conseguiu emprego como office-boy na Nitro Química e passou a frequentar o clube de regatas da empresa, onde teve contato com vários esportes, mas se apaixonou pela corrida.

Com bons resultados em competições, ganhou bolsa de estudos no colégio Liceu Eduardo Prado, formou-se técnico químico e tornou-se ajudante de laboratório. Mais tarde, foi chefe do setor na Rhodia. Casou-se em 1956 e teve três filhos, deixando de competir, mas nunca parou de se movimentar.

Voltou às competições em 1982, dedicando-se às maratonas. Entre suas conquistas, está o recorde brasileiro dos 800 metros em 2019, pela Associação Brasileira de Atletismo Master, na categoria 90 anos, percorrendo a distância em menos de cinco minutos. Sua última maratona foi aos 88 anos, e ele acumulou vitórias em campeonatos brasileiros até os 92 anos. Segundo a nora, Adriana Silva, ele bateu recordes de cinco e dez quilômetros sucessivas vezes após os 70 anos e foi campeão sul-americano em sua faixa etária.

Correndo, continuou até os 93 anos, quando reduziu o ritmo por orientação médica, mas seguiu caminhando de oito a dez quilômetros por dia. A amiga Eliane de Carvalho recorda que Erasmo, bem vestido e com passos rápidos, recusava caronas ao voltar do supermercado e dizia que era preciso manter-se ativo e autônomo. “Tinha uma postura positiva diante da vida. Mencionava a idade avançada como um exercício de aceitação de quem não tem tempo a perder”, afirmou.

Questionado sobre como mantinha a prática esportiva, Erasmo respondia que era fácil porque os concorrentes eram poucos. “A esta altura, os adversários já não estavam mais neste plano para fazer história, dizia ele, e soltava uma boa risada”, lembrou Eliane. O amigo Rodrigo Bageli o via como exemplo e inspiração: “Vê-lo correr sempre me fazia aprumar a postura, deixar as reclamações de lado e arregaçar as mangas”.

O filho Amauri Coutinho destacou que o pai alfabetizou filhos e netos, ensinou a soltar pipa, andar de bicicleta, nadar, pescar e acampar. “Foi um paizão.” Depois de aposentado, Erasmo plantou milhares de árvores em seu sítio em Mogi Guaçu (SP), ajudando a recuperar nascentes. Ele deixa a mulher, Elenice, duas irmãs, três filhos, quatro netos e dois bisnetos.

Com informações de Folha — Cotidiano.