O governo dos Estados Unidos proibiu, na última sexta-feira, o uso do modelo de inteligência artificial mais avançado da empresa Anthropic por pessoas que não possuam cidadania americana. A restrição, baseada exclusivamente na nacionalidade e não na residência, é inédita no setor de IA. Mesmo funcionários estrangeiros da própria Anthropic foram impedidos de acessar o sistema.
Diante da impossibilidade de verificar a cidadania de cada usuário, a Anthropic optou por suspender o acesso ao seu modelo mais potente para todos, de forma indiscriminada. A decisão de Washington gerou reações globais e evidenciou o que especialistas chamam de 'soberania tecnológica' na prática.

Reação da China e o termo 'qia-bo-zi'
Na China, a medida foi interpretada como um alerta. O termo mandarim qia-bo-zi (卡脖子), que significa 'estrangular o pescoço', foi utilizado para descrever a situação. A avaliação de analistas chineses é que a dependência de modelos americanos de IA implica o risco de ser 'estrangulado' a qualquer momento, e que a estratégia do país de investir em modelos próprios de IA mostrou-se correta.
Os quatro níveis de soberania tecnológica
No dia 3 de junho, a Comissão Europeia lançou o 'Pacote de Soberania Tecnológica', que define quatro níveis de autonomia digital. O primeiro é o controle local sobre os dados no país. O segundo é a independência na cadeia de software, com auditoria e mitigação de interferências externas. O terceiro exige que a infraestrutura de hardware e software seja controlada por cidadãos do próprio país. O quarto nível é a capacidade de desenvolver de forma autônoma a própria tecnologia, incluindo modelos de inteligência artificial.
Situação do Brasil: dependência externa e projeto local
O Brasil, segundo dados citados no artigo, não alcança sequer o primeiro nível de soberania digital. Cerca de 60% da carga digital do país está hospedada em data centers no estado da Virgínia, nos EUA, incluindo sites, aplicativos, comércio eletrônico, operações bancárias, Pix e serviços públicos como o SUS. Especialistas apontam que as possibilidades de um 'qia-bo-zi' sobre o Brasil são enormes.
Em inteligência artificial, o principal projeto público brasileiro para desenvolver um modelo de IA local e soberano é o SoberanIA.ai, no Piauí. Segundo relatos colhidos durante visita ao estado, ouviu-se que 'o Ministério da Defesa ainda vai precisar do SoberanIA' — sinalizando a urgência de capacitação nacional na área.
O caso dos EUA e da Anthropic reforça o debate sobre a necessidade de países como o Brasil buscarem autonomia tecnológica para evitar riscos de descontinuidade em serviços essenciais que dependam de infraestrutura estrangeira.