O governo dos Estados Unidos oficializou nesta sexta-feira (5/6) a classificação das facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A decisão, anunciada em 28 de maio, foi publicada no Federal Register, o Diário Oficial americano, assinada pelo secretário de Estado Marco Rubio.

Outra medida publicada no mesmo dia, também assinada por Rubio, permite o congelamento de bens e ativos de pessoas ligadas ao PCC e ao CV que estejam sob jurisdição dos EUA, sem aviso prévio. A justificativa é que um aviso antecipado permitiria a transferência rápida de recursos financeiros, tornando as sanções ineficazes. Também fica proibida a realização de transações financeiras entre pessoas ou empresas americanas e essas organizações, além de sanções contra quem fornecer apoio material, financeiro ou logístico aos grupos.

A designação representa a maior derrota do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na relação com o governo de Donald Trump desde a imposição do tarifaço em 2025. O governo brasileiro era contrário à medida, argumentando que ela poderia colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares norte-americanas sob pretexto de combate ao terrorismo, além de ir contra a legislação brasileira, que distingue atividades de facções criminosas de terrorismo.

Do outro lado, o grupo liderado pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defendia publicamente a medida há mais de um ano, apontando a posição contrária do governo Lula como suposta conivência com o crime organizado. A decisão foi anunciada um dia após Flávio Bolsonaro encerrar uma viagem a Washington, onde se encontrou com Trump, o vice-presidente J.D. Vance e Marco Rubio.

Após a oficialização, Lula se manifestou: "Quer combater o crime organizado? Entregue os nossos que tão lá nos EUA. Nós não aceitamos ser tratados como moleque. Não aceitamos ser tratados como uma republiqueta". Ele também criticou a atuação de Flávio Bolsonaro, afirmando que este "não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil".

O governo brasileiro publicou nota em 29 de maio classificando como "deplorável" a intervenção da família Bolsonaro em temas internacionais, sem citar nomes. A nota diz que "a segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros".

Integrante do governo ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que a decisão foi resultado da ação da ala bolsonarista com acesso ao governo norte-americano, que teria atuado para criar constrangimento ao governo. Outra preocupação são os possíveis impactos no sistema financeiro brasileiro, com risco de sanções a empresas ou bancos com vínculos comerciais, ainda que involuntários, com as facções.

A ideia de adotar sanções contra PCC e CV como entidades terroristas vinha sendo estudada pelo governo norte-americano há vários anos. Em 2021, o Tesouro dos EUA já havia incluído o PCC como entidade designada, permitindo sanções. O plano ganhou força após o início do segundo mandato de Trump, em 2025, com discussões internas no Departamento de Estado e reuniões com promotores brasileiros.

Em maio de 2025, assessores do Departamento de Estado estiveram no Brasil e se reuniram com a família Bolsonaro, que defendeu a designação. O governo brasileiro monitorou o movimento, vendo possível interferência na política de combate ao crime organizado. Em julho de 2025, com o tarifaço, a expectativa era de que a medida pudesse ser adotada, o que não ocorreu.

Lula tentou desmontar o discurso pró-designação, afirmando em setembro de 2025 na Assembleia Geral da ONU que "é preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo" e que a forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas.

Em 8 de março deste ano, o portal UOL revelou que o governo norte-americano estava prestes a adotar a medida. O governo brasileiro montou uma operação de emergência, e o chanceler Mauro Vieira conversou por telefone com Marco Rubio. Em 10 de março, o Departamento de Estado reiterou que considerava as facções como ameaças. Lula passou a defender cooperação como alternativa, e os países discutiram propostas nesse sentido.

Em 13 de março, a Folha de S. Paulo revelou que os EUA haviam enviado um plano ao Brasil pedindo medidas para extinguir PCC e CV. O esforço diplomático parecia ter surtido efeito, mas o assunto voltou à tona em 28 de maio, após a visita de Flávio Bolsonaro a Washington. Ele se encontrou com Trump, Vance e Rubio, defendendo a designação. Segundo Flávio, Rubio teria parecido mais favorável à proposta que Trump.

Antes da viagem, interlocutores de Lula diziam que, apesar de uma aproximação recente com Trump, o governo tinha convicção de que diversos setores do governo norte-americano preferem a candidatura de Flávio Bolsonaro à de Lula.

Com informações de BBC News Brasil.