Um estudo do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, ligado ao programa Polos de Cidadania da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), registrou 150 mil episódios de violência contra pessoas em situação de rua entre os anos de 2014 e 2023. A pesquisa, no entanto, indica que o número real deve ser significativamente maior devido à subnotificação crônica: a maioria das vítimas não registra queixa ou busca ajuda institucional por medo de retaliações, falta de confiança nas instituições ou ausência de condições para fazê-lo.

O estudo foi citado em artigo publicado na coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta”, mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG). O texto, assinado pelo doutor em Educação José Heleno Ferreira, membro da rede, aponta que a violência contra a população em situação de rua foi naturalizada, tratando as vítimas como “ninguéns”, em referência ao escritor Eduardo Galeano.

Para ilustrar a permanência dessa prática, o artigo relembra dois casos ocorridos com quase 30 anos de diferença. Em abril de 1997, o indígena Galdino Jesus dos Santos, liderança Pataxó, foi queimado enquanto dormia em uma parada de ônibus em Brasília (DF). Os jovens responsáveis pelo ato justificaram-no como uma “brincadeira”, afirmando que pensaram que a vítima fosse uma pessoa em situação de rua. Em abril de 2026, em Belém (PA), estudantes universitários agrediram violentamente um homem em situação de rua com arma de choque, também entre risos, em um episódio tratado como brincadeira.

O artigo define essa rejeição aos pobres como aporofobia, termo cunhado pela filósofa Adela Cortina. No Brasil, a editora Companhia das Letrinhas publicou o livro “Aporofobia – você não conhece a palavra, mas conhece o sentimento”, de Blandina Franco, voltado ao público infantojuvenil.

O texto também cita o poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, escrito em 1947, que descreve um homem catando comida no lixo. O autor conclui que, quase 80 anos depois, homens e mulheres continuam nas ruas buscando não apenas alimento, mas também dignidade, respeito e carinho — elementos essenciais a qualquer ser humano.

Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.