Uma economista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) tornou-se alvo de críticas de representantes patronais e lobistas em Brasília por defender, com base em estudos, que o fim da escala 6×1 pode gerar empregos e não causar colapso econômico. A proposta de emenda constitucional (PEC) que prevê a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, sem redução salarial, deve ser votada na quinta-feira (28) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados.

O relator da PEC, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), prometeu colocar o tema em votação após semanas de pressão de setores empresariais, que tentam ampliar o período de transição ou obter compensações fiscais. Nos bastidores, representantes patronais e lideranças de extrema direita defendem desde a redução de encargos trabalhistas até uma transição de até dez anos.

Estudo da Unicamp contraria argumentos empresariais

A professora e pesquisadora Marilane Teixeira, do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp, coordena um estudo que aponta que a redução da jornada para 40 horas pode gerar entre 600 mil e 700 mil postos de trabalho — e, no cenário original de 36 horas, entre 4 milhões e 4,5 milhões. A pesquisa também projeta um ganho de produtividade de cerca de 4,6% nos setores mais intensivos em tecnologia.

Segundo Teixeira, o estudo utilizou a mesma metodologia de entidades patronais para mostrar que não há necessariamente queda do Produto Interno Bruto (PIB). “O problema não é econômico, o problema é político”, afirmou a economista em entrevista.

Setores com escala 6×1 exigiriam mais contratações

Teixeira explicou que, mantendo o PIB constante e reduzindo as horas trabalhadas, a economia precisaria compensar a redução por meio de ganhos de produtividade ou contratações. Setores como comércio, serviços, supermercados e farmácias, que operam seis ou sete dias por semana, teriam de contratar mais pessoas para reorganizar as escalas.

“Você precisa reorganizar a escala, precisa substituir quem está descansando, e isso implica contratação”, disse a pesquisadora. Já setores intensivos em tecnologia, que já praticam jornadas reduzidas, absorveriam a mudança com ganhos de produtividade.

Debate político, não econômico

Para Teixeira, o debate sobre o fim da escala 6×1 tornou-se político. “A gente chegou a esses dados justamente para mostrar que não é um modelo econômico que vai dizer o que vai acontecer”, afirmou. Ela rebateu argumentos de que o trabalhador não é a parte mais fraca na relação, citando a assimetria entre capital e trabalho, e defendeu que o objetivo principal da proposta é melhorar a qualidade de vida, não gerar empregos — embora esse seja um efeito positivo.

A economista também refutou a ideia de que a produção não pode parar, como alegam representantes do setor rural. “Uma coisa é estabelecer na legislação a jornada de 40 horas e a escala 5 por 2. Outra coisa é como você organiza isso dentro de cada setor”, disse, lembrando que já existem escalas alternativas em setores que funcionam todos os dias.

Com informações de Intercept Brasil.