Um levantamento conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal da Bahia (UFBA) revelou que, entre 2000 e 2019, o Brasil registrou cerca de 120 mil mortes relacionadas a ondas de calor. Esse número equivale a 0,6% do total de óbitos no período. O estudo foi coordenado no âmbito de projetos dos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Meio Ambiente.

Metodologia e abrangência

Os cientistas utilizaram dados do Sistema de Informações de Mortalidade do DataSUS, cobrindo todos os 5.566 municípios brasileiros existentes em 2000. A análise caracterizou as ondas de calor com base em frequência, intensidade e duração, além de examinar os efeitos sobre hospitalizações e mortalidade. O trabalho foi dividido em etapas, começando com uma revisão das evidências já disponíveis sobre os impactos do calor extremo na saúde.

“Para mortalidade, há estudos feitos no Brasil, mas concentrados na região metropolitana ou nas capitais. Nós ampliamos a análise para o Brasil inteiro, em termos de risco e impacto. Além da abrangência, exploramos grupos e causas específicas e questões de faixa etária”, explicou Beatriz Oliveira, pesquisadora em saúde pública da Fiocruz e condutora do estudo.

Distribuição geográfica e grupos vulneráveis

A maioria dos municípios apresentou aumento na frequência e intensidade das ondas de calor ao longo do período analisado. Contudo, a exposição não foi homogênea: as regiões Norte e Centro-Oeste tiveram eventos mais frequentes, longos e persistentes, enquanto o Sul e o Sudeste enfrentaram ondas com maior intensidade em relação à temperatura média local.

Além de idosos e mulheres, a pesquisa identificou que pessoas com baixa escolaridade formam um grupo especialmente vulnerável. “O aumento da mortalidade associado à onda de calor não é igual para todos. À medida que aumenta a escolaridade, diminui o risco de óbito. O grupo com menor escolaridade tem menor condição de se adaptar. Isso implica, por exemplo, na residência onde mora, em ter ar-condicionado, na questão de se deslocar e permanecer muito mais tempo exposto a essas condições”, afirmou Oliveira. Ela acrescentou que esses indivíduos geralmente ocupam postos de trabalho informais e residem em áreas com acesso limitado a serviços de saúde.

Causas de morte e hospitalizações

Das 120 mil mortes atribuídas ao calor intenso, 97 mil ocorreram em pessoas com 65 anos ou mais. Cerca de 58 mil óbitos (48,3%) tiveram como causa doenças cardiovasculares e respiratórias. Quanto às internações no Sistema Único de Saúde (SUS), as principais causas foram doenças respiratórias – especialmente pneumonia – e condições do sistema urinário, como insuficiência renal, em quase todas as regiões do país.

Em crianças menores de 10 anos, as gastroenterites foram a causa de internação mais fortemente associada às ondas de calor, devido à desidratação, à imaturidade dos mecanismos de termorregulação e a alterações ambientais que afetam a qualidade da água e o armazenamento de alimentos durante o calor extremo. Já os idosos mostraram maior sensibilidade a causas respiratórias, renais e metabólicas, com destaque para o diabetes.

Recomendações e resposta

Para a pesquisadora, o primeiro passo é reconhecer o calor extremo como um risco à saúde pública e fortalecer a capacidade dos serviços de saúde de responder às altas temperaturas, ampliando o monitoramento. Ela citou como exemplo positivo o sistema de alerta ao calor implementado no Rio de Janeiro, que integra dados meteorológicos aos de saúde e comunica a população. “Priorizar esses grupos que o nosso estudo apontou como mais vulneráveis” é essencial, destacou Oliveira.

A resposta aos eventos climáticos, segundo ela, é coletiva e envolve as três esferas de governo e a população. “O serviço da ponta é a atenção primária, a porta de entrada do serviço público que atende hoje mais de 70% de uma população que depende exclusivamente do SUS. Também existe a questão individual, de reconhecer o risco para a saúde humana.” Isso inclui campanhas de comunicação para orientar a população a aumentar a ingestão de água e proteger especialmente idosos, crianças e doentes crônicos.