Um novo estudo conduzido pela Amazon Conservation em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) indica que as florestas públicas ainda sem destinação oficial são fundamentais para a manutenção dos chamados rios voadores — grandes correntes de vapor d’água que partem da Amazônia e abastecem outras regiões da América do Sul. A pesquisa identifica rotas críticas e alerta para o risco do desmatamento sobre a segurança hídrica do continente.
De acordo com o estudo, mais de 70% das chuvas em áreas estratégicas do Peru e da Bolívia estão associadas a esses rios voadores, que sustentam a agricultura, o abastecimento de água e a geração de energia nos dois países. Os pesquisadores combinaram modelagem atmosférica, mapas de desmatamento e dados fundiários para localizar os corredores de umidade.

As rotas passam pelo Acre e pelo sudoeste da Amazônia brasileira, próximas às rodovias BR-319 e BR-364. Grande parte desses trajetos coincide com Florestas Públicas Não Destinadas (FPNDs), áreas pertencentes à União ou aos estados sem destinação formal para conservação ou uso sustentável. As FPNDs ocupam 50 milhões de hectares e armazenam 5 bilhões de toneladas de carbono, mas respondem por 26% a 30% do desmatamento no bioma.
Foram identificadas três rotas sazonais dos rios voadores, referentes aos períodos chuvoso, de transição e de seca. A rota da estação seca é considerada a mais vulnerável, pois depende da reciclagem de umidade pela floresta e atravessa áreas sob forte pressão de desmate. O Acre aparece como ponto de convergência das três rotas antes que sigam para Peru e Bolívia.

O estudo introduz o conceito de Territórios de Umidade Crítica, áreas essenciais para o transporte de vapor d’água. A proposta é que esses territórios sejam incorporados às políticas de ordenamento territorial e conservação. Os autores citam a seca histórica de 2023-2024 como um exemplo da vulnerabilidade crescente.
Os impactos já são sentidos: na Bolívia, a produção de soja em Santa Cruz perdeu até 75% durante estiagens severas; no Peru, culturas como a batata foram afetadas. A bacia do rio Madeira atingiu níveis históricos baixos em 2024, comprometendo navegação, energia e abastecimento.

Entre as recomendações, o estudo defende que os rios voadores sejam considerados em licenciamentos ambientais e avaliações de infraestrutura na Amazônia. Também propõe acelerar a destinação das FPNDs, ampliar a restauração florestal e fortalecer programas como o Arpa e o Planaveg, além de incentivar a cooperação entre países amazônicos.
Com informações de ((o)) eco — leia a matéria original.