Um estudo financiado pela NASA e conduzido por pesquisadores da Universidade Rice, nos Estados Unidos, propõe uma nova explicação para a origem de elementos essenciais à vida na Terra. Publicado na revista Science Advances em março de 2025, o trabalho investigou a origem do fósforo e do nitrogênio, dois componentes fundamentais para os seres vivos. Os resultados sugerem que esses elementos podem ter sido fornecidos principalmente por materiais formados nas regiões mais próximas ao Sol, contrariando a hipótese dominante de que teriam chegado à Terra principalmente por meio de corpos oriundos do Sistema Solar externo.

Estudo questiona origem de elementos essenciais

Segundo a hipótese mais aceita até agora, os elementos químicos indispensáveis para a vida – como fósforo e nitrogênio – teriam sido trazidos por condritos carbonáceos, meteoritos rochosos originados nas regiões externas do Sistema Solar. No entanto, a nova pesquisa, baseada em experimentos laboratoriais e modelos geoquímicos, indica que a distribuição desses elementos no Sistema Solar primitivo foi mais complexa. Processos como a formação de planetas gigantes alteraram essa distribuição, e o interior do Sistema Solar pode ter desempenhado um papel mais relevante do que se imaginava.

Douglas Galante, astrobiólogo e professor de Geobiologia do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), explicou ao Olhar Digital que a teoria tradicional considerava que boa parte dos elementos voláteis teria chegado à Terra apenas no fim de sua formação, trazida por corpos da parte externa do Sistema Solar. “Os resultados indicam que corpos semelhantes aos primeiros grandes planetesimais – que passaram por processos de diferenciação e deram origem aos meteoritos metálicos – podem ter sido importantes reservatórios de nitrogênio e fósforo”, afirmou.

CHNOPS: os ingredientes da vida

Toda a vida na Terra depende de seis elementos químicos: carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, fósforo e enxofre, conhecidos pela sigla CHNOPS. Esses elementos se originaram no interior de estrelas antigas e foram espalhados pelo espaço. Cerca de 4,6 bilhões de anos atrás, parte desse material formou o Sol e, ao seu redor, um disco de gás e poeira que deu origem aos planetas, luas, asteroides e cometas.

Galante detalhou a função de cada elemento: “O carbono é o que dá a estrutura, porque consegue formar cadeias longas e estáveis, e é nele que se montam praticamente todas as moléculas orgânicas. O hidrogênio e o oxigênio aparecem na água, que é o meio onde a química da vida acontece. O nitrogênio é peça central das proteínas e do material genético. O fósforo faz parte da estrutura do DNA e do RNA e também da molécula que a célula usa para guardar e gastar energia. E o enxofre ajuda a dar forma e função a várias proteínas.” O especialista ressaltou que, sem qualquer um desses elementos, “a bioquímica como a conhecemos simplesmente não se monta”.

Meteoritos como cápsulas do tempo

Os meteoritos são fundamentais para esse tipo de investigação, pois funcionam como amostras naturais do Sistema Solar primitivo. A equipe analisou principalmente dois grupos: os meteoritos metálicos, originados dos planetesimais mais antigos, e os condritos, meteoritos rochosos formados posteriormente. O engenheiro químico Gabriel Gonçalves Silva, doutor em química pela USP e atualmente pós-doutorando em geoquímica de microfósseis pela Unisinos, destacou que os dados indicam que os corpos diferenciados do Sistema Solar interno podem ter fornecido boa parte do nitrogênio e fósforo necessários à formação da Terra, sem a necessidade de um aporte dominante de material carbonáceo vindo das regiões externas.

Silva acrescentou que essa interpretação é reforçada por outros estudos sobre a composição do Sistema Solar interno, incluindo pesquisas sobre a presença de água em materiais dessa região. “Cada vez mais há indícios de que a maior parte do material que formou a Terra se formou nesse interior do Sistema Solar, com esses elementos sendo incorporados rapidamente aos primeiros planetesimais”, afirmou. Ele também lembrou que, embora missões como Hayabusa e OSIRIS-REx tenham trazido amostras de asteroides, os meteoritos oferecem uma diversidade muito maior e a um custo mais baixo, pois caem naturalmente na Terra em locais como desertos quentes (Saara, Atacama) e frios (Antártica).

Papel de Júpiter na distribuição de elementos

A descoberta também destaca a importância de Júpiter na história do Sistema Solar. Por ter sido um dos primeiros planetas a se formar, sua gravidade pode ter ajudado a concentrar elementos como fósforo e nitrogênio na região onde a Terra surgia. Para Galante, isso levanta uma questão relevante para a busca de vida em outros sistemas: “Será que um mundo rochoso precisa de um planeta gigante como Júpiter por perto para receber esses elementos na proporção adequada?”

O estudo não encerra o debate sobre a origem da vida, mas adiciona uma nova peça ao quebra-cabeça. Os cientistas seguem investigando como outros elementos essenciais chegaram à Terra e qual foi a participação exata dos diferentes tipos de meteoritos nesse processo.