O Estreito de Luzon, faixa marítima que separa o norte das Filipinas do sul de Taiwan, pode se transformar no próximo grande ponto de conflito internacional. Com cerca de 250 quilômetros de largura, a passagem conecta o Mar do Sul da China ao Mar das Filipinas e integra a chamada Primeira Cadeia de Ilhas, um arco geográfico que vai do Japão até Bornéu, considerado pelos EUA e pela Otan como uma barreira natural à marinha chinesa.

Importância estratégica e econômica

O estreito é rota essencial para o comércio global. Por ele passam importações do Oriente Médio destinadas às potências do Leste Asiático, além de componentes eletrônicos como semicondutores e commodities minerais. Interrupções em gargalos marítimos estratégicos, como ocorreu no Estreito de Ormuz, podem gerar prejuízos comerciais de até US$ 192 bilhões anuais, considerando atrasos, desvios de rotas e prêmios de seguro, segundo estudo da revista Nature Communications.

O arquipélago de Batanes, no extremo norte das Filipinas, funciona como ponto de vigilância militar e entreposto marítimo avançado para os movimentos no Pacífico Ocidental e no Mar do Sul da China, região disputada por reservas de petróleo e gás entre Filipinas, China e Vietnã.

Tensões militares crescentes

A Marinha do Exército de Libertação do Povo, força naval da China, utiliza o corredor de Luzon para deslocar seus navios do Mar do Sul da China para o Pacífico aberto, incluindo submarinos estratégicos para dissuasão nuclear. A passagem é crucial para a reintegração de Taiwan, ambicionada por Pequim, e tornou-se foco de tensões com os EUA, que apoiam militarmente Taipei.

Nos últimos anos, as Filipinas intensificaram a cooperação militar com Washington. Pelo Acordo de Cooperação Reforçada de Defesa (EDCA, na sigla em inglês), os EUA podem usar instalações estratégicas filipinas, especialmente no norte de Luzon e na ilha de Mavulis, a apenas 150 km de Taiwan. Em 2024, durante o exercício Salaknib, os EUA enviaram para o norte de Luzon o sistema Typhon Mid-Range Capability, um lançador de mísseis e interceptadores que participou de treinamentos de defesa costeira e guerra anfíbia.

Movimentações recentes e reações

Em 2025, as Filipinas ativaram uma nova base militar em Mahatao, na ilha de Batan, para apoiar a defesa e vigilância no estreito. A China, por sua vez, intensificou sua presença naval na região, com envio de navios da Guarda Costeira e porta-aviões. Pequim criticou a disposição de lançadores de médio alcance pelos EUA, e o Ministério da Defesa Nacional da China afirmou que essas movimentações “perturbam a paz e a estabilidade regional”.

Enquanto as Filipinas realizam treinamentos conjuntos com aliados ocidentais e autorizam manobras norte-americanas, o estreito de Luzon se consolida como um palco de crescente rivalidade geopolítica, com potencial para se tornar o próximo grande ponto de conflito global.