Os estoques globais de petróleo estão em queda acentuada, intensificando a pressão sobre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para firmar um acordo com o Irã que permita a retomada do fluxo de combustível vindo do golfo Pérsico. Grandes reservas de petróleo e derivados, mantidas por empresas e governos em tanques e cavernas subterrâneas, ajudaram a suprir a lacuna de oferta causada pelo conflito entre EUA e Israel contra o Irã, mas esses volumes estão se esgotando em diversas regiões, inclusive nos Estados Unidos.
Reservas dos EUA em nível histórico
Nesta semana, os estoques do governo norte-americano estavam prestes a atingir o menor patamar desde 1983. O marco foi ofuscado pelo anúncio feito por Trump na quarta-feira (17) de um acordo de paz entre EUA e Irã. Como consequência, o preço do petróleo caiu para o menor valor desde 2 de março, primeiro dia de negociação após o início do conflito em 28 de fevereiro. Nesta quinta-feira, o barril do Brent era negociado a aproximadamente US$ 78, bem abaixo do pico de US$ 119,42 registrado em 9 de março.
Incertezas sobre a trégua
Ainda não está claro o que a trégua pode significar na prática. Caso o fornecimento de petróleo e combustíveis não melhore rapidamente, consumidores ao redor do mundo podem enfrentar custos de energia significativamente mais altos. O estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás, continua sendo um gargalo crítico. Especialistas em energia concordam que, até que mais petróleo consiga transitar pelo estreito, o mercado permanecerá frágil.
“Em breve, ficaremos sem amortecedores de choque”, afirmou Antoine Halff, cofundador da consultoria Kayrros e ex-analista-chefe de petróleo da Agência Internacional de Energia (AIE).
Consumo e estoques regionais
O consumo mundial de petróleo é de cerca de 100 milhões de barris por dia. As reservas diminuíram de forma especialmente rápida em países que dependem fortemente de importações, como Japão e Coreia do Sul. Os Estados Unidos, maior produtor global, também estão esvaziando seus tanques à medida que as empresas aumentam as exportações para atender à demanda internacional.
Por outro lado, os países do golfo Pérsico acumularam estoques, não por escolha, mas porque o fechamento do estreito reduziu suas vendas. Algumas nações conseguiram enviar mais navios pelo estreito nas últimas semanas, trazendo certo alívio.
O papel da China
A China detém o que é considerado o maior estoque de petróleo do mundo — cerca de um terço de todas as reservas conhecidas, segundo a empresa de pesquisa Kpler — e parece mal ter utilizado esse volume. Halff especula que o país pode estar usando reservas subterrâneas de difícil monitoramento. “A China é uma das maiores incógnitas, um dos maiores enigmas”, comentou.
Combustíveis específicos e riscos de escassez
Os estoques de gasolina e óleo combustível, utilizado para aquecimento, estão especialmente baixos para a época do ano, o que torna o cenário mais preocupante. Apesar disso, ainda não há escassez generalizada. “Temos menos petróleo no mundo, e isso está começando a aparecer nos mercados de consumo final em alguns cantos”, disse Rick Joswick, analista da S&P Global Energy. “Mas não há nenhuma prova definitiva que eu possa apontar e dizer: ‘Olha, esses aeroportos não estão recebendo seu combustível de aviação, ou esses consumidores não conseguem comprar gasolina’”.
Nos Estados Unidos, os preços nas bombas provavelmente subiriam muito antes de os tanques se esgotarem, de acordo com analistas. Regiões costeiras como o Nordeste e a Califórnia, que dependem fortemente de petróleo e gasolina importados, são especialmente vulneráveis a aumentos de preços.
“Há vários pontos de estrangulamento, e é muito difícil modelar qual pode vir primeiro”, afirmou Daniel Sternoff, pesquisador sênior do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia.
Impacto no combustível de aviação
Um exemplo ilustra a complexidade: no início da guerra, havia o temor de que aeroportos na Europa, que compram muito combustível de aviação do golfo Pérsico, pudessem ficar sem suprimento. As refinarias responderam aos preços altos aumentando a produção de querosene de aviação em detrimento da gasolina.
Reserva Estratégica dos EUA
As reservas de petróleo dos EUA são mantidas por empresas ou pelo governo. A Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) funciona como uma última linha de defesa em emergências. O país está em meio a uma retirada de 172 milhões de barris, uma das maiores da história. Isso deixará a SPR — um conjunto de cavernas de sal no Texas e na Louisiana — mais vazia do que em quase meio século, logo após as crises do petróleo dos anos 1970.
Ainda há petróleo disponível em poder de empresas nos EUA e em outros lugares, mas o esgotamento da SPR reduz a flexibilidade do governo federal para apoiar o mercado caso o acordo com o Irã não se concretize ou o transporte marítimo continue restrito.