A principal ameaça ao mercado de trabalho não é o temido poder destrutivo da inteligência artificial, mas uma economia global estagnada que perdeu a capacidade de gerar vagas devido ao avanço lento da produtividade no setor de serviços. A avaliação é do historiador e sociólogo Aaron Benanav, professor da Universidade Cornell e autor do livro "Automação e o Futuro do Trabalho", lançado no Brasil no final de 2025.
Em entrevista à Folha durante sua passagem pelo Brasil na segunda semana de maio, Benanav afirmou que a IA tende a afetar mais os trabalhadores iniciantes do que os de nível médio, o que pode levar à precarização e à redução de salários — fenômeno já observado em plataformas digitais como aplicativos de transporte e entrega.
Ceticismo sobre previsões catastróficas da IA
Benanav recomenda cautela diante das afirmações sobre a capacidade da IA de eliminar empregos em massa. Segundo ele, os métodos usados para prever quais postos desaparecerão não têm histórico de acerto. Na década de 2010, temia-se que robôs tomariam empregos, mas muitas das ocupações previstas para declinar, na verdade, se expandiram.
O historiador explica que novas tecnologias eliminam algumas vagas, mas o impacto depende do percentual de tarefas que um computador consegue executar. Estudos recentes indicam que, se a máquina realiza até 45% do trabalho, o número de empregados na função pode crescer; se ultrapassa 50%, a redução é modesta, em torno de 6%. "Não é algo catastrófico", ressalta. O equilíbrio entre ocupações deve mudar, mas o impacto tende a ser localizado, não generalizado.
Desqualificação digital e pressão sobre salários
Ao contrário do que se imaginava, a IA não está facilitando a entrada de trabalhadores inexperientes no mercado. Ela afeta mais os jovens e iniciantes, o que pode reduzir os níveis de renda no futuro. Benanav chama o fenômeno de "desqualificação digital": as tecnologias permitem que empregadores acessem um conjunto maior de trabalhadores e, assim, paguem menos, aumentando a competição.
O exemplo dos aplicativos de transporte ilustra essa dinâmica. O Uber não acelerou o deslocamento, mas possibilitou contratar motoristas sem conhecimento das ruas, ampliando a oferta de mão de obra e pressionando os rendimentos. Se a IA reduzir os empregos de entrada, trabalhadores de nível médio podem se beneficiar em salários, mas o problema central persiste: a economia não cresce rápido o bastante para criar vagas.
Estagnação e o peso dos serviços
Benanav atribui a estagnação à migração do emprego da indústria para os serviços a partir dos anos 1970. Enquanto a indústria se beneficia da padronização e do crescimento exponencial da produtividade, os serviços têm taxas muito baixas de aumento de produtividade e pouca capacidade de usar tecnologia para acelerar o trabalho.
Robôs e IA representam a tentativa de tornar os serviços mais produtivos, mas os resultados são limitados. Há muitos robôs industriais, mas quase nenhum robô de serviço, porque as tarefas não são padronizadas. A IA enfrenta problemas como as alucinações, ainda sem solução definitiva. Muitas empresas relatam gastar muito e obter pouco ganho de eficiência com essas tecnologias.
Economia de plataformas como laboratório de precarização
No Sul Global, cerca de 70% ou mais dos empregos estão em serviços de baixa produtividade. A economia de plataformas padronizou trabalhos informais, gerando algum aumento de renda para alguns, mas também se tornou um laboratório de desqualificação digital. Empresas usam ferramentas digitais para vigilância e para ampliar o número de trabalhadores disponíveis, reduzindo salários.
Benanav defende que a tecnologia seja usada para melhorar a produtividade e gerar crescimento, não para comprimir rendimentos por meio da vigilância. Ele reconhece que as plataformas podem oferecer mais autonomia em comparação a empregos tradicionais, mas transferem mais riscos aos trabalhadores. O baixo desemprego em muitos lugares esconde o subemprego, com empregos de baixa qualidade que aumentam a desigualdade.
Jovens, flexibilidade e falsas esperanças
O desejo dos jovens por flexibilidade e fuga de empregos formais entediantes é compreendido por Benanav, mas ele alerta para as ilusões do empreendedorismo de plataforma. Muitos aspiram ser influenciadores ou criadores de conteúdo, mas a maioria não consegue renda suficiente — situação comparável à busca por carreiras de astro do futebol ou cinema.
Defesa da redução da jornada de trabalho
Benanav apoia o movimento pela semana de quatro dias no mundo e de cinco dias no Brasil. Reduzir a jornada pode aumentar a produtividade e a felicidade, mantendo os salários. Além disso, com desemprego alto, a diminuição da oferta de horas de trabalho fortalece o poder de barganha dos trabalhadores e eleva os salários. "Isso seria bom para todos", afirma, vendo na medida um caminho para reverter a queda na qualidade dos empregos.
Professor assistente no Departamento de Desenvolvimento Global da Universidade Cornell, Benanav pesquisa automação, desemprego, subemprego e sistemas econômicos alternativos. Seu livro, lançado originalmente em 2020, foi traduzido para dez idiomas. Atualmente, ele trabalha em dois novos projetos: um sobre história e futuro do planejamento econômico e da democracia, e outro sobre a história global do desemprego desde 1940.
Com informações de Folha — Mercado.