A escritora francesa Estelle-Sarah Bulle afirmou estar habituada a episódios de racismo, que se tornaram o eixo central de sua obra literária. Em participação na Feira do Livro, nesta sexta-feira, ela compartilhou experiências de discriminação racial vividas dentro e fora do Brasil.
Segundo Bulle, ao tentar tomar café da manhã em um hotel no Brasil, ela se perdeu e, ao perguntar à gerência para onde deveria ir, foi encaminhada a um local reservado a funcionários. A autora disse que situações similares são frequentes. Em Guadalupe, território francês no Caribe, hóspedes brancos já lhe perguntaram onde ficava o toalete ou o local para deixar roupas sujas, supondo que ela fosse funcionária do hotel. Em Cuba, um policial a confundiu com uma prostituta que rondava o hotel onde estava hospedada.
“Às vezes sou brasileira, às vezes sou cubana. Mas a cada vez sou remetida à categoria social que se projeta sobre os negros em geral. Isso é uma experiência que todas já vivemos”, declarou Bulle.
A mesa contou com a participação da escritora e colunista da Folha Bianca Santana, mediada por Adriana Ferreira Silva. Santana relatou episódio semelhante: após lançar o livro “Quando Me Descobri Negra”, durante o festival literário de Araxá (MG), faminta, foi direcionada ao refeitório dos empregados.
Bulle, que lança na feira o livro “Onde o Vento Faz a Curva” (editora 34), disse que decidiu escrever por sentir falta de narrativas que refletissem sua própria experiência. Filha de pai nascido em Guadalupe e mãe francesa, ela notou que a literatura francesa costumava retratar um universo restrito. “A história quase sempre acontece em Paris, só com pessoas de raça branca”, afirmou.
Uma das ausências que mais a marcaram foi a língua crioula falada por seu pai. Ela nunca aprendeu o idioma; o pai preferia que ela dominasse o francês culto, com expectativas de ascensão social. “Me vingo um pouco fazendo meus personagens falarem crioulo. Na verdade, só sei falar três palavrinhas”, disse a autora.
Santana destacou o conceito de “escrevivência”, formulado por Conceição Evaristo, e a importância de pessoas negras narrarem suas próprias histórias. “Se a gente tem mais de 50% da população brasileira negra, a literatura brasileira também foi por muito tempo branca, escrita principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro por homens falando de sua realidade”, afirmou.
Debate sobre ditadura e literatura infantil
Na sequência, os escritores Chico Mattoso e Maria Brant participaram de debate sobre livros infantis que abordam a ditadura militar no Brasil. Mattoso, autor de “O Hipopótamo” (Todavia), e Brant, autora de “O Ano do Cometa” (Fósforo), discutiram por que, em 2026, ainda é fundamental falar sobre o tema.
Mattoso afirmou que havia “certa ingenuidade” na impressão de que a democracia havia vencido. “Aquilo que a geração dos meus pais atravessou na minha infância parecia pertencer a uma idade média, algo muito distante”, disse. Para ele, a profusão de títulos sobre os anos ditatoriais atualmente se relaciona com “a erupção desses zumbis em 2018”, em referência à vitória de Jair Bolsonaro (PL), notório entusiasta do regime militar.
Brant também foi influenciada pela ascensão do bolsonarismo. “Eu me lembrava de toda a euforia e esperança que teve quando houve a redemocratização. Sabia que tinha pessoas próximas que pagaram um preço alto para lutar pela democracia, e de repente a gente elegeu uma pessoa que era contra a democracia.” Em ano eleitoral, ela afirmou que “parece que esse espectro da ditadura continua aí”, justificando a necessidade de escrever para que a história não se apague.
Com informações de Folha — Ilustrada.