Em um artigo publicado na Folha, o escritor e roteirista, autor de "Por quem as panelas batem", reflete sobre o impacto da inteligência artificial na criação literária. Desde o surgimento do ChatGPT, a pergunta se repete: as máquinas aprenderão a contar boas histórias? Produzirão contos, romances, poemas e roteiros com profundidade e beleza? O autor relata que, em um bar, um interlocutor tentou convencê-lo de que, ao criar personagens e uma trama, uma ferramenta de IA poderia gerar ótimas cenas. O escritor, no entanto, não compreendia por que ele insistia no método anacrônico de buscar ideias dentro da própria cabeça.

Para o autor, grande parte da graça de escrever está em descobrir sobre o que se está escrevendo. Na maioria das vezes, as histórias não brotam prontas na mente de um escritor. O que surge é uma imagem, uma frase, uma cena — um fio que o inconsciente lança e que deve ser puxado até desenrolar todo o novelo. O cerne do ofício é o processo, não uma noite de autógrafos ou uma estreia na TV.

O escritor mineiro Campos de Carvalho, por exemplo, teve um dia o título "A lua vem da Ásia" em sua cabeça, sem saber o que significava. Sentou-se à máquina de escrever e, após meses investigando apenas com as mãos e o sentimento do mundo, terminou a história que começa com a frase: "Aos 16 anos matei meu professor de lógica..."

William Faulkner escreveu "O Som e a Fúria" quando lhe veio a imagem de uma menina com a calcinha enlameada, em cima de uma árvore, olhando por uma janela para dentro de uma casa. As perguntas sobre quem era a menina, por que a calcinha estava enlameada e o que havia na sala levaram à criação de um dos maiores romances do século 20.

Gabriel García Márquez, ao retornar à sua cidade, Aracataca, após anos distante, sentiu o cheiro das goiabas caídas num quintal. O turbilhão de memórias de infância resultou em "Cem anos de solidão".

O autor argumenta que, se alguém escolheu escrever como ofício, deve-se desconfiar que algum prazer ou sentido tire da labuta. O trabalho, quando fruto de vocação e não de mera subsistência, é um dos motivos que fazem querer sair da cama todas as manhãs. Colocá-lo nas mãos do computador, não apenas nas letras, mas em todas as áreas, é um caminho para a humanidade se alienar ainda mais de uma existência que já não está num patamar Dalai Lama de mindfulness.

O escritor ironiza a expectativa de que o Google ou a Meta promovam lentes de contato com realidade virtual que garantam sexo sem tocar em ninguém. A tecnologia — como o trampolim, o cavaquinho, a churrasqueira e a ultrassonografia — deveria estar a serviço da vida, ajudando a vivê-la mais plenamente, não a relegá-la a segundo plano enquanto microchips, Sam Altman e Mark Zuckerberg gozam pela e da gente.

Com informações de Folha — Cotidiano.