Vômito, enxaqueca, ardência nos olhos e dores estomacais tornaram-se queixas frequentes entre alunos e professores da Escola Municipal Joaquim Dino Gadelha, na comunidade Cabeça Preta, zona rural de Limoeiro do Norte (CE). A unidade educacional está localizada em meio a plantações de banana, que dominam a paisagem da região, um dos principais polos frutícolas do Brasil.

Histórico de sintomas e evacuações

Desde fevereiro de 2024, quando surgiram os primeiros relatos de possível contaminação por pulverização aérea de agrotóxicos, o problema se intensificou. O diretor da escola chegou a interromper as atividades em diversas ocasiões para evacuar estudantes e profissionais diante da exposição a produtos químicos. A informação consta de um relatório da Secretaria da Saúde do Ceará e de outros órgãos estaduais, publicado em julho de 2025, após inspeção na escola, na plantação e no posto de saúde local.

Em fevereiro de 2025, um grupo de crianças apresentou sintomas como dor de cabeça, febre, vômito e diarreia. Esse episódio ocorreu apenas dois meses após a liberação da pulverização aérea de agrotóxicos por drones no Ceará, permitida por lei estadual sancionada no fim de 2024. Em maio de 2025, a escola chegou a interromper as aulas devido a um forte odor vindo do bananal vizinho. As mães e lideranças comunitárias então procuraram a prefeita Dilmara Amaral (PRD) em busca de solução. Depois disso, algumas crianças passaram a frequentar as aulas usando máscaras.

Inspeção estadual e achados

A inspeção coordenada pela Secretaria da Saúde do Ceará foi uma resposta a um ofício da Assembleia Legislativa do Ceará, motivado por “relatos preocupantes” de possíveis impactos aos moradores pelo uso intensivo de drones na pulverização. O relatório aponta que, “devido à proximidade do bananal com as salas de aula e refeitório, o deslocamento de resíduos por vento é uma hipótese plausível”. As casas dos moradores ficam a apenas 12 metros das plantações, separadas por uma via pública, e a escola é cercada pelas lavouras, tornando-se um dos pontos mais críticos.

A análise da água fornecida pela rede pública detectou o herbicida Atrazina, mas a concentração estava dentro do limite considerado seguro no Brasil. O relatório ressalva que ainda não há evidências suficientes para estabelecer conexão entre a exposição a agrotóxicos e os afastamentos de alunos e professores, mas recomenda o monitoramento sistemático desses afastamentos.

“Dependendo da metodologia, os resultados das pesquisas podem mudar. Por isso, é importante adotar metodologias diversas na análise da água”, afirmou a geógrafa Bernadete Freitas, pesquisadora da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Denúncias contra a empresa responsável

A fiscalização também avaliou as condições de trabalho dos funcionários da IMJ Agrícola, proprietária do bananal que cerca a escola. Embora a empresa tenha declarado utilizar drones apenas para aplicação de fertilizantes, a inspeção revelou uso de agroquímicos. As receitas agronômicas apresentadas indicam que os fungicidas Opera e Collis podem ter sido aplicados por drones, prática negada pela IMJ Agrícola. A Repórter Brasil tentou contato com a empresa, mas não obteve resposta.

Segundo o fabricante do Opera, os ingredientes ativos estão associados a náusea, vômitos, desconforto gastrointestinal, irritação na garganta e nos olhos, tosse e dificuldade para respirar. A ficha do produto informa que ele é “altamente persistente no meio ambiente” e recomenda que não seja aplicado por via aérea a menos de 500 metros de povoações e mananciais de captação de água, nem a menos de 250 metros de moradias isoladas.

Notificações e desafios de fiscalização

Um ano e três meses após os primeiros sintomas, a Secretaria Municipal de Saúde realizou as primeiras notificações de intoxicação exógena na comunidade. Em 2025, foram registradas cinco notificações relacionadas à localidade, ainda sob investigação epidemiológica. O nexo causal com a contaminação por agrotóxicos não foi estabelecido. A secretaria solicitou ao governo estadual a disponibilização de exames para moradores, visando uma avaliação mais objetiva.

A comunidade Cabeça Preta tem cerca de 2 mil habitantes, dos quais 345 crianças e adolescentes estudam na escola Dino Gadelha. Um agricultor local relatou que seu filho passa mais tempo em casa do que na escola por adoecer com frequência, apresentando lábios e nariz ressecados, dor de cabeça, de garganta e vômito. Ele afirma que antes da chegada da fruticultura, quando a região cultivava milho, não havia mau cheiro. Com o uso de drones, o odor piorou.

Uma professora disse ter passado mal no início de maio devido a um forte odor e recebeu atestado de três dias por cistite aguda. Ela suspeita que a água da rede pública, potencialmente contaminada, tenha causado o problema. O refeitório da escola é uma das áreas mais afetadas pelo odor vindo das lavouras.

Aline Maia, agente da organização não governamental Cáritas, afirmou que todo mês chega uma denúncia sobre a pulverização por drones. Para ela, a nova legislação dificulta a fiscalização, pois os drones são mais difíceis de monitorar que os aviões.

Posição das autoridades

O deputado estadual Renato Roseno (PSOL), autor da lei que inicialmente proibia a pulverização aérea e depois foi modificada para permitir drones, apontou a falta de registro de todos os equipamentos, o que dificulta saber sua comercialização e uso. A Superintendência Estadual de Meio Ambiente (Semace) informou que, após a liberação, houve aumento no número de denúncias, especialmente na Chapada do Apodi, mas a comprovação de infrações é um desafio técnico.

A Prefeitura de Limoeiro do Norte afirmou que a escola funciona normalmente, sem interrupção, e que o Instituto Municipal de Meio Ambiente não conseguiu comprovar tecnicamente que os odores têm origem em agrotóxicos. A Secretaria de Educação segue monitorando a unidade. A Secretaria Estadual de Saúde do Ceará disse que a inspeção de 2025 identificou fatores ambientais que justificam acompanhamento, e avalia a pertinência de realizar exames na população, observando critérios científicos.

Contexto de violência

O problema em Limoeiro do Norte não é novo. Em 2010, o ativista Zé Maria do Tomé foi assassinado com 25 tiros após denunciar a poluição por agrotóxicos na região. Por medo, as fontes da reportagem pediram anonimato.