A Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (Amoc), uma vasta corrente oceânica que transporta calor dos trópicos em direção à Groenlândia, está enfraquecendo, de acordo com estudos recentes. Se a desaceleração continuar, o norte da Europa pode enfrentar invernos muito mais frios, monções tropicais podem se deslocar e o nível do mar pode subir repentinamente ao longo da costa leste dos Estados Unidos. No entanto, apesar dos alertas científicos, a Amoc raramente ganha destaque prolongado na mídia, um fenômeno que uma pesquisadora visitante do Centro de Astronomia Extragaláctica da Universidade de Durham (Reino Unido) atribui à falta de imagens impactantes.
O desafio da invisibilidade
Diferentemente de florestas tropicais ou calotas polares, a Amoc opera em grande parte fora da vista, movendo-se lenta e silenciosamente nas profundezas do Atlântico. A pesquisadora argumenta que o jornalismo climático desenvolveu uma cultura visual baseada em imagens dramáticas — como florestas em chamas, icebergs se fragmentando e furacões — que funcionam como representações de sistemas difíceis de observar. A Amoc, porém, não se encaixa nesse filtro visual.
Um exemplo comparável é a grande mancha de lixo do Pacífico, frequentemente imaginada como uma ilha flutuante, mas que na realidade é uma sopa difusa de microplásticos. A mancha ganha cobertura porque imagens representativas, como garrafas descartadas e redes retiradas do oceano, lhe conferem uma forma reconhecível. A Amoc carece de tais símbolos visuais.
Características da Amoc
A corrente opera em uma escala lenta, mas imensa: águas superficiais quentes deslocam-se para o norte, dos trópicos à Groenlândia, onde se resfriam, tornam-se mais densas, afundam cerca de 5.000 metros e retornam para o sul em profundidade. Com centenas de quilômetros de largura em alguns pontos, redistribui calor e salinidade pelo Atlântico. Ainda não se sabe exatamente a rapidez da mudança, mas diversos estudos indicam uma tendência de enfraquecimento.
Evidências científicas
Os pesquisadores observam vestígios da Amoc por meio de corais mortos, camadas de sedimentos, instrumentos que registram movimentos nas profundezas e modelos computacionais que reconstroem a circulação em três dimensões. Satélites oferecem pistas superficiais sobre temperatura e salinidade. No entanto, esses resultados são geralmente destinados à análise científica, não à cobertura jornalística ou à compreensão do público.
Imagens e percepção pública
O Met Office (Reino Unido) e a Nasa costumam usar diagramas em vermelho e azul com setas circulando pelo Atlântico. A jornalista ambiental Vicky Allan, que mora na Escócia, disse que entendeu o assunto ao ver um slide de palestra mostrando uma "bolha azul" fria sobre a Escócia, representando invernos com temperaturas de -30°C. Contudo, tais imagens não têm significado universal, pois dependem da experiência direta e da memória cultural do observador.
A Amoc é às vezes ilustrada com imagens de uma "Europa congelada", mas a maioria dos cientistas considera esse cenário apocalíptico improvável. A pesquisadora alerta que, se os jornalistas se apoiarem demais nessa ideia, a própria ciência corre o risco de ser adaptada para se adequar a uma convenção visual que atraia o público.
Limitações do jornalismo climático
A autora observa que sistemas complexos e invisíveis, quando aparecem na grande mídia, costumam ter imagens dramáticas com mais repercussão do que o conteúdo da matéria. Ela cita seu próprio trabalho sobre satélites se queimando na atmosfera: imagens impactantes ajudam a imaginar o fim da vida útil das naves, mas sua mensagem principal sobre o efeito incerto das partículas microscópicas nas nuvens polares foi mais difícil de transmitir.
Das profundezas do oceano à alta atmosfera, muitos processos ambientais significativos ocorrem além da percepção humana, em escalas de décadas a milênios. O jornalismo climático depende de um filtro visual restrito — imagens urgentes, dramáticas e centradas no ser humano —, o que pode reduzir vastos processos a eventos visíveis. A Amoc e sistemas críticos semelhantes revelam a lacuna entre o que importa para o clima e o que se torna visível nas notícias.
Este texto foi baseado em artigo publicado no The Conversation e reproduzido pela Folha.