O diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional, Enio Verri, afirmou que as negociações entre Brasil e Paraguai sobre a tarifa da energia produzida pela usina têm avançado, embora os interesses dos dois países nem sempre coincidam. Em entrevista, Verri defendeu a política de manter a tarifa congelada até 2026, com previsão de redução em 2027, e destacou que energia barata é um instrumento de inclusão social e desenvolvimento.
“O Paraguai tem direito a 50% da energia. O Brasil usa toda a sua parte e compra o que o Paraguai não utiliza. Ele quer vender o mais caro possível e precisa desse recurso para financiar seu desenvolvimento. Para nós, por outro lado, energia barata é inclusão social e desenvolvimento”, disse Verri, que é ex-deputado pelo PT e foi indicado ao cargo pelo presidente Lula.
Verri afirmou que o diálogo com o governo do presidente paraguaio, Santiago Peña, tem sido produtivo e que a tarifa permanecerá congelada até 2026, com queda em 2027. “Desde quando nós assumimos aqui em 2023, conseguimos um acordo muito bom. A tarifa do Brasil está congelada por quatro anos. Em 2026, a tarifa não subiu e, em 2027, ela vai cair. Isso eu posso garantir aos nossos consumidores”, declarou.
Papel da Itaipu no sistema elétrico
Verri explicou que a usina, que já representou 25% da produção de energia no Brasil, hoje responde por cerca de 8% do consumo nacional, mas assumiu um papel estratégico como “bateria” do sistema, garantindo o fornecimento quando fontes intermitentes, como solar e eólica, não geram energia. “A partir das 16 horas, onde o sol começa a se esconder, nós chegamos até a dobrar a nossa entrega de energia no país”, afirmou.
O diretor-geral informou que a Itaipu estuda, em parceria com o Ministério de Minas e Energia, duas formas de ampliar a entrega de energia firme: contratar consultoria internacional para aumentar a produtividade das unidades existentes, aproveitando avanços na física, e construir duas novas unidades geradoras, o que depende de acordo com o Paraguai e com a Argentina, devido ao nível da água do rio.
Investimentos em novas energias
A Itaipu pesquisa hidrogênio verde há mais de 20 anos, por meio do centro de inovação Itaipu Park Tech, e está em estágio avançado para oferecer o produto ao mercado. O primeiro barco 100% movido a hidrogênio verde da América Latina foi desenvolvido pela usina e utilizado na COP30, em Belém do Pará. A usina também possui uma planta de energia solar no reservatório e investe em biogás, com ônibus internos movidos a esse combustível.
Verri destacou que o Brasil tem excesso de oferta de energia intermitente, mas que o desafio é armazená-la. “Queremos desenvolver baterias para armazenar a energia solar e, aí sim, poderemos ampliar a produção de energia solar”, disse. A usina também pesquisa petróleo sintético para aviação.
Investimentos socioambientais
Com a quitação da dívida histórica da usina em fevereiro de 2023, a Itaipu passou a direcionar recursos para manutenção e atualização tecnológica, além de investimentos socioambientais. Verri explicou que a estratégia inicial de investir diretamente em prefeituras foi revista por se tornar paternalista, e a empresa passou a focar em entidades, como associações de agricultura familiar e cooperativas de reciclagem.
O programa Itaipu Mais Que Energia abrange os 399 municípios do Paraná e 35 do Mato Grosso do Sul, com ações de preservação ambiental, apoio a cooperativas de reciclagem (260 no Paraná) e investimentos em estradas rurais e energia solar. Verri citou como exemplos a instalação de energia solar em universidades públicas e Santas Casas do Paraná.
Mudanças climáticas e segurança hídrica
Sobre o risco de secas prolongadas, Verri afirmou que a usina mantém uma equipe de hidrologia que monitora o reservatório e que, apesar de episódios como a seca de 2021, a produção hidrelétrica deve se manter constante nos próximos três anos. “Não temos excesso de água, mas nós não estamos com falta d’água para produzir energia”, garantiu.
Reparação histórica ao povo Avá-Guarani
Verri comentou o acordo de reparação histórica com a comunidade indígena Avá-Guarani, firmado em 2024, após 50 anos de espera. Ele atribuiu a demora à burocracia e à tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF). A Itaipu investiu na compra de 3 mil hectares e presta assessoria para construção de moradias, produção de água e desenvolvimento cultural e agrícola. “Reconhecemos que a dívida não está sendo integralmente paga. A dívida com a comunidade indígena do Brasil começa em 1500”, afirmou.
Prioridade aos municípios lindeiros
Verri assegurou que os municípios lindeiros ao Lago de Itaipu continuam recebendo atenção prioritária, com investimentos em educação, cultura, saúde e infraestrutura, além dos royalties pela ocupação das águas. “Os municípios lindeiros, na nossa gestão, recebem muito mais recursos do que no passado”, disse.
Cooperativas de reciclagem
A Itaipu apoia a implantação de cooperativas de reciclagem em 260 municípios do Paraná, fornecendo equipamentos e assessoria financeira e social. Verri destacou que a renda média dos cooperados chega a R$ 4 mil mensais, ante R$ 1 mil a R$ 1,2 mil antes do programa. “A justiça é isso, não é porque o pessoal recolhe lixo que tem que ganhar menos”, concluiu.
Com informações de Gazeta do Povo.