A economista Cecília Machado, colunista da Folha, publicou artigo alertando para os possíveis impactos negativos do forte aumento do endividamento das famílias sobre o crescimento econômico brasileiro no futuro próximo. Segundo ela, há evidências empíricas que documentam essa relação, com base em estudos acadêmicos.

Evidências de estudos internacionais

O principal estudo citado é "Indebted Demand", de Atif Mian, Ludwig Straub e Amir Sufi, publicado em 2021 no The Quarterly Journal of Economics (versões preliminares desde 2017). Outro estudo relevante é "Understanding the Macro-Financial Effects of Household Debt: A Global Perspective", preparado por economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Essas pesquisas apontam que elevações do endividamento das famílias geram crescimento do PIB no curto prazo, mas reduzem o crescimento no médio prazo (de 3 a 5 anos depois) — fenômeno conhecido como "debt overhang", ou "ressaca de endividamento".

Fatores que agravam a ressaca

A intensidade da ressaca tende a ser maior quanto maior for o aumento da alavancagem das famílias e quanto maior for a participação do crédito imobiliário nesse aumento, devido aos longos prazos de amortização (frequentemente superiores a 10 anos). Elevações expressivas do crédito também aumentam a probabilidade de crises bancárias, incluindo surtos de inadimplência que impactam negativamente a oferta de crédito pelos bancos.

Situação no Brasil

No contexto brasileiro, os níveis de endividamento atingiram patamares recordes recentemente, conforme explorado em coluna anterior sobre o Desenrola 2.0. Boa parte do aumento ocorreu em 2021/22, quando a Selic estava em 2% ao ano e o crédito imobiliário apresentava taxas nominais de cerca de 6% a 7% ao ano — considerado "barato" para os padrões históricos brasileiros.

De acordo com os estudos citados, a ressaca costuma ocorrer de 3 a 5 anos após o forte aumento do endividamento. Cecília Machado afirma que o país está exatamente nessa janela e que sua impressão é que a ressaca se manifestará com força em 2027, após as eleições, já que anos eleitorais costumam ser associados a impulsos fiscais e parafiscais.

Impacto sobre a taxa de juros de equilíbrio

Uma consequência destacada é que o "debt overhang" geralmente reduz a taxa de juros de equilíbrio (ou neutra) da economia por um período, devido à redução da demanda e da oferta de crédito. Atualmente, o Banco Central estima a taxa neutra entre 5% e 5,5% em termos reais, o que corresponderia a uma Selic entre 9,3% e 9,8% ao ano, considerando as expectativas de mercado para o IPCA nos próximos 12 meses. Há analistas que estimam taxa neutra de 6% ou mais (Selic acima de 10% ao ano). A economista argumenta que esses números podem não incorporar a possibilidade da ocorrência do fenômeno da ressaca de endividamento.