O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) de 2025, aplicado entre outubro e novembro pelo Ministério da Educação (MEC), incluiu questões sobre “literatura negra”, vacinas, uso de nome social por adolescentes e sistema de cotas nas provas destinadas a avaliar professores recém-formados em cursos de Licenciatura. A divulgação dos resultados, que classificou 52% dos cursos de formação de professores a distância como insuficientes, trouxe à tona o conteúdo das provas.
Especialistas em Educação ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que diversas perguntas negligenciariam conhecimentos essenciais à formação docente e exigiriam respostas de cunho ideológico. A professora Ilona Becskeházy, doutora em política educacional pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), declarou: “Tenho que olhar o gabarito para entender o que a pessoa está inventando naquela questão, porque não é sobre didática ou teoria, é pura lacração”. Segundo ela, a prova deveria abranger conteúdos como compreensão de texto, estrutura sintática e classes de palavras, mas o conhecimento cobrado seria diferente.
Questões gerais para todas as licenciaturas
Uma das perguntas presentes no questionário de todas as licenciaturas tratou do “nome social” de alunos no ambiente escolar. A questão apresentou o caso hipotético de “uma estudante de 15 anos” com certidão de nascimento constando “identificação masculina” que teria solicitado à secretaria acadêmica o uso de um nome diferente e teve pedido negado. Com base na Resolução do MEC número 1/2018, o futuro professor deveria escolher a alternativa correta. Conforme o gabarito, a instituição deveria “atender ao pedido mediante formalização da solicitação pelos responsáveis legais da estudante”.
Outra questão abordou como o professor deveria se portar diante de “questionamentos acerca da eficácia das vacinas”. A pergunta citou o Programa Nacional de Imunizações (PNI), sem especificar o imunizante contra Covid-19, e afirmou que seria preciso desenvolver um projeto de conscientização sobre a “importância da atualização das carteiras vacinais e do combate à desinformação”.
A prova geral também abordou o tema das cotas, com uma tirinha apresentada aos alunos por um professor do Ensino Médio que ajudaria a “compreender as ações afirmativas previstas em lei como uma conquista democrática decorrente da mobilização social”. Outra pergunta citou “os signos de Exu e de Ogum” – das religiões de matriz africana – como “boas pistas” para “lidar com a escola na busca de espaços menos opressivos”.
Questões específicas por área
Nas questões específicas para cada licenciatura, as perguntas eram voltadas às abordagens de cada disciplina. Na prova para professores de língua portuguesa, por exemplo, foram apresentadas perguntas com base em textos sobre “literatura negra”, “LGBTfobia” e violência contra mulheres.
O professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro e doutor em Educação Pedro Caldeira afirmou que a avaliação geral apresentou pouquíssimas questões relacionadas ao trabalho docente específico. Além disso, as poucas perguntas que atenderiam ao objetivo teriam sido estruturadas com base em “metodologias pedagógicas obsoletas, mas que são consideradas no Brasil como metodologias pedagógicas bem-sucedidas”. Essas visões foram apresentadas sem contraponto, “contribuindo para a perpetuação de uma abordagem pedagógica questionável” no país, o que Caldeira classificou como “um desserviço prestado à educação brasileira”.
Quanto às questões específicas de Língua Portuguesa, Caldeira disse que elas seguiram a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os objetivos de aprendizagem definidos pela legislação. No entanto, questionou se as questões possibilitam a seleção de professores qualificados, lembrando que, em provas como o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (Pisa), menos de 5% dos alunos obtêm resultados de excelência em Língua Portuguesa e leitura. Para ele, a avaliação de Língua Portuguesa do Enade deveria incluir perguntas sobre gramática, figuras de linguagem e fonética, mas a prova parece ser “propositalmente feita para que essa avaliação não ocorra, de modo a garantir que os estudantes brasileiros continuem incompetentes”.
A Gazeta do Povo tentou contato com o Ministério da Educação (MEC) e com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mas não recebeu retorno até a publicação da reportagem.
Com informações de Gazeta do Povo.