Após o governo dos Estados Unidos classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, empresas brasileiras iniciaram uma varredura para identificar parceiros comerciais que possam ter vínculos com as facções. A medida, anunciada em 28 de maio e em vigor desde esta sexta-feira (5), mobilizou escritórios de advocacia e consultorias, onde o trabalho nas áreas de compliance mais que dobrou, segundo relatos obtidos pela Folha.

De acordo com especialistas, as companhias buscam mapear clientes, fornecedores e prestadores de serviço que possam representar risco. O objetivo é avaliar quais desses parceiros podem ser excluídos das redes de negócios para prevenir sanções futuras. O advogado Eloy Rizzo, sócio do escritório Demarest, afirma que a demanda por informações é intensa. "As empresas já entenderam que é preciso aprimorar a identificação e começar a cortar quem for necessário", diz. Ele ressalta, porém, que a efetividade das ações dependerá do direcionamento político das autoridades americanas.

Rizzo aponta que setores com maior competição entre Brasil e Estados Unidos devem atrair mais atenção. As leis americanas de combate ao terrorismo são amplas e permitem que órgãos como o Departamento do Tesouro investiguem e apliquem sanções de forma autônoma. Mesmo que uma empresa comprove desconhecimento sobre vínculos com as facções, ela pode sofrer punições como perda de contas bancárias no Brasil ou bloqueio de bens nos EUA.

Leandro Piquet, coordenador da Esem-USP, classifica o poder de sanção como "poderosíssimo". As atividades consideradas mais vulneráveis incluem venda de combustíveis, logística de transporte, defensivos agrícolas, construção civil, comércio de imóveis, ouro e apostas esportivas. O setor financeiro está na linha de frente, pois toda a cadeia — de bancos a fintechs — pode ser escrutinada. Lucia Hauptman, CEO da Prada Assessoria, explica que o sistema financeiro é a principal via para rastrear recursos de suspeitos.

Especialistas jurídicos relatam que o simples anúncio da nova designação já iniciou um cerco silencioso à economia brasileira. O advogado José Andrés Lopes da Costa, especializado em transações internacionais, afirma que "tudo fica mais complexo, moroso e custa mais caro por causa do aumento do risco", afetando desde compras e vendas até fusões e investimentos.

Para traçar cenários, os profissionais de compliance analisaram o caso do México, onde seis cartéis foram classificados como terroristas em fevereiro de 2024. A medida não gerou operações espetaculares, mas alterou as relações comerciais. No setor de abacate, por exemplo, o aperto no compliance elevou os custos em até 12% em algumas rotas, embora as exportações não tenham sido interrompidas. Em maio de 2025, os EUA sancionaram duas empresas de logística mexicanas por transportarem combustível para cartéis, sinalizando que o combate agora mira qualquer fonte de receita que alimente financeiramente as organizações, não apenas drogas.

Em junho, o Tesouro americano acusou dois bancos e uma corretora mexicanos de facilitar operações ligadas aos cartéis. As três instituições administravam cerca de US$ 21 bilhões em ativos. Embora não tenha havido condenação judicial, a acusação levou à intervenção da autoridade bancária mexicana e, em outubro, um dos bancos entrou em liquidação. A crise mais grave, porém, foi diplomática: em abril de 2025, a morte de agentes da CIA em operação no México sem conhecimento do governo local gerou forte reação da presidente Claudia Sheinbaum em defesa da soberania nacional.

O advogado Raphael Soré, do Machado Meyer, detalha que PCC e CV receberam duas designações: FTO (Foreign Terrorist Organization) e SDGT (Special Designated Global Terrorist Organization). Cada uma aciona diferentes procedimentos e punições, que podem ser aplicadas por diversos órgãos americanos, inclusive contra empresas sem operação nos EUA. "Conviver com esses regramentos agora passa a ser a rotina", afirma Soré.

Glossário do compliance

  • AML (Anti-Money Laundering): Leis e controles contra lavagem de dinheiro.
  • Asset Freeze: Bloqueio de bens de sancionados.
  • Beneficial Owner: Pessoa que controla ou se beneficia de uma empresa, mesmo sem aparecer formalmente.
  • CFT (Countering the Financing of Terrorism): Medidas contra o financiamento do terrorismo.
  • Correspondent Banking: Relação bancária internacional; perder esse acesso é um risco central das sanções.
  • De-risking: Encerramento de contas de clientes de alto risco.
  • Designated Entity: Pessoa ou entidade em listas de sanções.
  • EDD (Enhanced Due Diligence): Investigação aprofundada para clientes de alto risco.
  • FinCEN: Unidade de inteligência financeira do Tesouro dos EUA.
  • KYC (Know Your Customer): Procedimentos de identificação de clientes.
  • Lista SDN: Cadastro de sancionados pela OFAC; bloqueia bens e proíbe negócios com americanos.
  • Material Support: Qualquer apoio a organização terrorista, incluindo dinheiro, bens ou serviços.
  • OFAC: Agência do Tesouro dos EUA que aplica sanções econômicas.
  • Overcompliance: Adoção de restrições além do exigido por lei para evitar riscos.
  • Reputational Risk: Risco de perda de clientes ou parceiros por associação com sancionados.
  • SAR (Suspicious Activity Report): Relatório de atividade suspeita enviado ao FinCEN.
  • Sanctions Screening: Verificação de contrapartes contra listas de sanções.
  • Secondary Sanctions: Punições a empresas estrangeiras que negociem com sancionados, mesmo sem presença nos EUA.
  • UBO (Ultimate Beneficial Owner): Beneficiário final efetivo de uma empresa.
  • Watchlist: Lista de monitoramento de clientes ou parceiros associados a riscos.

Com informações de Folha — Mercado.