No dia 17 de abril, no Maranhão, a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos torturou Samara, uma jovem de 19 anos grávida de 5 meses que trabalhava como empregada doméstica em sua casa. Os áudios enviados por Carolina a um grupo de WhatsApp, divulgados pela imprensa em 5 de maio, registram as agressões: “Quase uma hora essa menina no massacre, e tapa e murro e pisava nos dedos”. Ela também afirmou: “Tapa e tapa, menina, dei. Gente, eu dei tanto que minha mão tá inchada. Até hoje meu dedo chega tá roxo”.

O crime contou com a participação do policial militar Michael Bruno Lopes, que, segundo relatos, colocou uma arma na boca da vítima e a ameaçou. Além disso, Carolina teria recebido proteção de outro PM que a conhecia: ao ser abordada por uma viatura, o policial teria dito que, se não fosse ele, teria que conduzi-la à delegacia, pois Samara estava cheia de hematomas. Carolina respondeu: “era para ter ficado era mais, não era para ter saído viva”.

Reação nas redes e comparação com caso Ypê

Dois dias após a divulgação dos áudios, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou medidas restritivas contra produtos da marca Ypê, fabricados pela Química Amparo, devido à presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa, que pode causar infecções graves como septicemia. A reação nas redes sociais foi intensa: apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro atacaram a Anvisa, acusando-a de perseguição política, e incentivaram o uso dos produtos contaminados, com vídeos de pessoas ingerindo detergente ou lavando frango com o produto.

Em contraste, o caso da tortura de Samara gerou menor comoção. O Google Trends, entre 5 e 10 de maio, mostra que as buscas sobre o caso Ypê superaram amplamente as sobre a agressão à empregada doméstica. Para a colunista, isso revela uma hierarquia de sofrimentos: “quem e o que merece de fato nossa atenção, inclusive a da imprensa”.

Contradições do discurso bolsonarista

A autora aponta três contradições no comportamento de setores bolsonaristas. Primeiro, a suposta defesa da família e das crianças: o caso envolve uma grávida de 5 meses espancada, colocando duas vidas em risco, mas não houve mobilização significativa. Segundo, a seletividade na definição de “bandido”: enquanto a retórica bolsonarista acusa a esquerda de defender criminosos, a agressora é uma empresária branca e a vítima, uma jovem negra e trabalhadora doméstica. Terceiro, a defesa do livre mercado: ao atacar a Anvisa, ignoram que a vigilância sanitária é essencial para a segurança do consumidor e que a agência, criada em 1999 no governo Fernando Henrique Cardoso, não é vinculada ao PT.

A colunista também lembra que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira incentivaram o uso dos produtos contaminados, colocando em risco a saúde pública.

Contexto mais amplo: a naturalização da violência contra trabalhadoras

O texto menciona outro caso emblemático: em 2023, uma trabalhadora venezuelana entrou em trabalho de parto dentro de um frigorífico da BRF em Lucas do Rio Verde (MT). O supervisor não a deixou sair; as filhas gêmeas nasceram na porta da fábrica e não sobreviveram. A empresa foi condenada a pagar R$ 150 mil por danos morais. A autora observa que o bolsonarismo também não se mobilizou nesse caso, e que a imprensa deu pouca repercussão.

Para a colunista, há um fio que conecta Samara, a trabalhadora venezuelana e tantas outras: são mulheres, em sua maioria negras, em posições de extrema vulnerabilidade econômica. A ausência de comoção nacional reflete uma hierarquia de sofrimentos, em que algumas vidas importam mais que outras. “A letargia diante da dor de quem trabalha de madrugada mesmo prestes a parir ou dentro das casas brasileiras não é falta de informação, mas de identificação”, conclui.

Com informações de Intercept Brasil.