Nem pássaro, nem avião, muito menos o Superman. Desta vez, a protagonista da história vestida em collant azul e vermelho se chama Kara Zor-El, opera sob o codinome Supergirl e obedece a uma bússola moral, no mínimo, maleável. Estreia desta quinta-feira, 25, o novo filme estrelado pela loira brilha justamente pela irreverência de sua figura central, interpretada com distinção pela australiana Milly Alcock, com suas madeixas desgrenhadas e ar descolado inspirado em garotas do punk. A jornada, no entanto, é turbulenta — e, infelizmente, não consegue atingir o potencial completo.

O resultado está longe de ser execrável, mas é frustrante se comparado ao bom ponto de partida. Baseada na história em quadrinhos Mulher do Amanhã, a história mostra uma versão da heroína endurecida pela perda de toda sua família com a extinção do planeta natal — salvo o primo Superman, enviado à Terra ainda bebê. Enquanto ele teve o privilégio de crescer entre humanos, a jovem teve de testemunhar o gradual declínio de saúde de seus parentes em uma comuna de refugiados, até não restar opção além da fuga interplanetária. Em vez de se assentar entre os terráqueos, no entanto, Kara decide viajar a outros sistemas solares, regidos por estrelas vermelhas que retiram seus superpoderes e possibilitam que ela afogue mágoas ao lado do único amigo: o cão alienígena Krypto.

O hedonismo só é interrompido quando o vil Krem (Matthias Schoenaerts) envenena o cachorro e foge com o antídoto. Para recuperá-lo, Kara então passa a colaborar com Ruthye (Eve Ridley), uma garota que teve a família toda assassinada pelo mesmo algoz e agora procura vingança — e está aí o primeiro ponto fraco da produção. Enquanto a jornada nas estrelas é vibrante e divertida, repleta de figuras bem mais inspiradas que aquelas de O Mandaloriano e Grogu (2026), Ruthye é uma personagem batida e pouco carismática, símbolo da mesma dinâmica entre experiência e impulsividade vista desde Batman Eternamente (1995) até Logan (2017).

O laço entre ambas jamais chega a comover tanto quanto quer, assim como as sequências pretensamente épicas de ação perdem força conforme o diretor Craig Gillespie faz uso de composições repetitivas, apoiadas no uso de canções do pop e do rock que nunca se encaixam tão bem quanto as utilizadas no Superman de James Gunn.

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É um trunfo ainda maior, portanto, que o magnetismo de Alcock não se perca. Pelo contrário, a atuação central ganha imponência ao longo do filme e é surpreendentemente mais crua em flashbacks situados no antigo planeta da heroína, onde se fala uma língua inventada. Trocando grunhidos com David Krumholtz, que intepreta seu pai, a protagonista dá vida às cenas que melhor desenvolvem seu caráter e argumentam a favor da existência do longa-metragem. Uma coisa, logo, é certa: Supergirl é tão digna de um filme quanto seu primo, mas também digna de menos inconsistências.

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