A única população selvagem da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), espécie em perigo de extinção, vive na caatinga baiana. Um projeto de conservação iniciado em 1993 elevou o número de aves de 50 para 2.548 em três décadas, mas a rede elétrica da região representa uma ameaça crescente.

A Fundação Biodiversitas, organização privada que administra a Estação Biológica de Canudos, no norte da Bahia, registrou 192 mortes por choque em linhas de média e baixa tensão nos últimos anos.

Erica Pacifico, pesquisadora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), estuda a conservação da espécie desde 2008. Segundo ela, os óbitos se tornaram mais frequentes com o avanço do desmatamento, que leva as araras a buscar alimento em áreas rurais, onde a fiação elétrica representa risco para casais em idade reprodutiva e filhotes.

A especialista afirma que seria necessário inverter a posição dos transformadores para evitar a descarga elétrica. "É uma solução muito simples, e não está sendo feito. Já faz cinco anos que existem tratativas com o Ministério Público, mas a gente não vê reação", declarou à Folha.

Luciana Khoury, promotora de Justiça Ambiental de Paulo Afonso (BA), disse que as autoridades tomaram conhecimento do caso em 2020. Investigações iniciais confirmaram que a causa dos óbitos era a eletroplessão, termo técnico para morte por choque elétrico acidental.

Khoury afirmou que o Ministério Público planeja firmar um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com a Neoenergia, empresa responsável pela energia na Bahia, para definir protocolos de adaptação das estruturas existentes e garantir que novas instalações sejam construídas no padrão adequado. "O tempo acabou sendo mais longo do que se deseja e, com isso, mais consequências para as araras", disse. A promotora informou que ainda falta definir a área exata dos ajustes e que a próxima reunião deve ocorrer neste mês para fechar o acordo.

A Neoenergia afirmou ter modificado mais de 6.100 estruturas para evitar mortes de aves, com adaptações como padrão construtivo para pouso seguro, distanciamento entre as fases da fiação e reposicionamento de isoladores. "Fazemos trocas constantes e contínuas nos municípios onde tem ocorrência das araras, para que elas possam ter uma interação sem risco de morte", disse Daniel Daibert, superintendente de meio ambiente e fundiário da Neoenergia.

A bióloga Tânia Maria Alves, gerente da Estação Biológica de Canudos, vê a situação de outra forma: "Infelizmente, isso ainda não foi finalizado, não está da maneira que deveria ser, e as araras continuam morrendo." O guarda-parque Guilherme Feitosa de Jesus, que também atua como assistente de pesquisa, afirmou: "Esse problema cresceu de 2018 para cá, e falta muito para resolver."

Erica Pacifico declarou que a distribuição de energia é importante para a população e que, por isso, o assunto é pouco falado. "Mas tenho clareza para dizer que a principal ameaça para a arara-azul-de-lear hoje é a eletroplessão, sem sombra de dúvidas." Sobre os impactos de torres eólicas instaladas em Canudos, a pesquisadora disse que não há registro de mortes de aves e que um estudo identificou baixo perigo de colisão com pás de aerogeradores. "Não temos evidência nenhuma de que o parque eólico cause risco para as araras, enquanto a rede de energia mata bicho agressivamente."

A Folha acompanhou uma expedição à Estação Biológica de Canudos em abril e observou as aves em vida livre no início da manhã, quando deixam os ninhos, construídos exclusivamente em paredões de arenito calcário, à procura do licuri, fruto de uma palmeira. No dia seguinte à visita, guarda-parques encontraram uma arara morta na rede elétrica. A equipe afirma que contabiliza de 1 a 3 óbitos por mês, em média.

Jorge Velloso, superintendente da Fundação Biodiversitas, afirmou: "Uma espécie ameaçada com histórico de 200 eletrocussões significa uma preocupação muito grande para a gente que luta no dia a dia." A organização recebe apoio da Seguros Unimed e tem parceiros internacionais.

Outro risco vem de Curaçá, também na Bahia, onde um surto de circovírus atingiu as ararinhas-azuis reintroduzidas à natureza pela ONG alemã ACTP (Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados) e pela empresa brasileira Blue Sky. Não há tratamento conhecido para o microrganismo, que pode matar as aves. O foco da doença está a 120 km em linha reta da Estação Biológica de Canudos. Segundo Erica Pacifico, as araras-azuis-de-lear costumam voar cerca de 60 km por dia, mas podem voar até 200 km de forma exploratória. "O circovírus na área de soltura da ararinha-azul é uma bomba para a gente, é um perigo sério", afirmou. Ela disse que a equipe testou 31 filhotes até meados de abril, sem evidências de contaminação das araras-azuis-de-lear. No fim de maio, uma operação retirou 69 ararinhas-azuis de um criadouro particular em Curaçá e as levou para um centro na Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), em Petrolina (PE).

A Estação Biológica de Canudos permaneceu fechada ao público de 1993 a 2013 para permitir a regeneração das aves. Com o crescimento da população, a União Internacional para a Conservação da Natureza mudou a classificação da arara-azul-de-lear: em 2009, a espécie deixou de estar criticamente em perigo de extinção e passou a estar em perigo. Velloso disse que o fechamento foi uma atitude acertada, ao reduzir o tráfico de animais, e antipática. "Durante 20 anos, a gente viveu em guerra com a comunidade, porque todo mundo sabia que tinha as araras, que o mundo inteiro estava falando, mas ninguém podia visitar." Atualmente, o local recebe de 600 a 800 visitantes por ano, com limite máximo de 15 pessoas por dia. Turistas estrangeiros pagam R$ 550 para acessar a reserva, e brasileiros, R$ 330. Moradores de Canudos têm gratuidade, mediante cadastro na prefeitura.

Com informações de Folha — Cotidiano.