Neste mês de junho, dois vizinhos sul-americanos do Brasil definirão seus rumos políticos: o Peru vota neste domingo (7/6) e a Colômbia, em 21 de junho. Em ambos os casos, a direita aparece como favorita após liderar o primeiro turno, o que pode consolidar um alinhamento com o governo de Donald Trump e isolar o Brasil, de acordo com especialistas.

Segundo Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, "os americanos estão fazendo um círculo de fogo em torno do Brasil", o que já gera pressão sobre o país. Carolina Silva Pedroso, pesquisadora da Unesp, avalia que uma vitória da esquerda traria alívio ao Planalto, mas não facilitaria a situação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Disputas eleitorais

No Peru, a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, tenta pela quarta vez chegar ao poder. Ela enfrenta Roberto Sánchez, ex-ministro do governo de Pedro Castillo, que foi destituído e preso em 2022. O país vive instabilidade política desde então, com uma sucessão de presidentes, sendo o atual José María Balcázar Zelada, de esquerda.

Na Colômbia, o senador Ivan Cepeda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro, ficou em segundo lugar no primeiro turno. À frente está Abelardo de la Espriella, político de direita radical que se inspira em Javier Milei e Nayib Bukele. Como a reeleição não é permitida, Petro busca fazer o sucessor.

Guinada à direita na região

As eleições recentes na América do Sul mostram um avanço da direita. Em novembro de 2023, Javier Milei venceu na Argentina; em abril de 2025, Daniel Noboa foi reeleito no Equador; em outubro, Rodrigo Paz encerrou quase 20 anos de governo do MAS na Bolívia; e em dezembro, José Antonio Kast derrotou a esquerda no Chile. A exceção foi o Uruguai, que elegeu Yamandú Orsi, de esquerda, em 2024.

Para os analistas, a eleição de Trump é um fator comum e essencial nessa onda conservadora. Pedroso destaca que, com Trump, formou-se uma integração clara entre as direitas da região, que se influenciam mutuamente. Sá Guimarães aponta ainda a "praga da incumbência": governantes têm dificuldade de se reeleger devido ao descompasso entre expectativas dos eleitores e capacidade de entrega dos Estados.

Impacto no Brasil

No Brasil, Lula enfrenta rejeição de 53%, segundo pesquisa Quaest de maio, e lidera as intenções de voto, mas com disputa acirrada no segundo turno. O Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil mostra Lula com 46% contra 41% de Flávio Bolsonaro. Sá Guimarães avalia que, mesmo com vitórias da direita no Peru e na Colômbia, Brasil e México, as maiores economias, seguem com governos de esquerda até o fim do ano, o que torna improvável uma captura total por um campo político.

Pedroso ressalta que a polarização e o radicalismo à direita, com a ascensão de outsiders como Milei e Bukele, são reflexos sociais. Na Colômbia, de la Espriella representa esse fenômeno. A pesquisadora observa que ferramentas tradicionais têm dificuldade de detectar a profundidade desses movimentos.

Relação com os EUA e questões transnacionais

Segundo Sá Guimarães, a política externa é tema eleitoral relevante, mas o fator Trump pesa mais que os resultados vizinhos. A direita brasileira pode usar eventuais vitórias como mobilização, mas a influência direta no voto é limitada. Contudo, os resultados afetarão a política externa de Lula ou de um eventual sucessor.

Flávio Bolsonaro, alinhado a Trump, encontrou-se com o presidente americano em maio. Após o encontro, os EUA classificaram facções brasileiras como terroristas, mas também concluíram investigação que ameaça o Brasil com tarifas. Para Sá Guimarães, "Flávio se engana muito se acredita que terá no presidente Trump um aliado de primeira hora", pois questões estruturais, como a relação com a China, independem de quem está no poder.

Pedroso considera que uma mudança na Colômbia seria mais dramática para o Brasil do que no Peru, pois Petro faz críticas a Trump que fortalecem a posição brasileira. Além disso, Colômbia e Peru são fronteiriços na Amazônia, com forte presença de crime organizado e narcotráfico, exigindo afinidade entre governos para enfrentar problemas comuns.

Para Sá Guimarães, o isolamento ideológico do Brasil teria fortes consequências na resistência à política de Trump. "Uma coisa é você ter um adversário na Bolívia ou na Argentina. Outra coisa é você ter dez adversários", afirma, destacando que os EUA buscam isolar o Brasil para reduzir a influência chinesa na região.

Com informações de BBC News Brasil.