A mais recente e ruidosa crise pública no seio da família Bolsonaro, desencadeada pelo vídeo em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ataca o enteado e pré-candidato à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), expôs muito mais do que meras rusgas domésticas ou disputas por nacos de poder partidário. O episódio trouxe à superfície um diagnóstico perturbador e crônico que acompanha a trajetória política do clã: a absoluta ausência de um projeto de país.
Desde que a pré-campanha à sucessão presidencial se instalou no horizonte político brasileiro, analistas, adversários e observadores atentos dos bastidores de Brasília têm notado um fenômeno sintomático. Embora os integrantes da família repitam de forma obsessiva o desejo de “voltar ao poder”, o debate público promovido por eles carece de qualquer substância programática. Não há uma única proposta estruturada de reforma econômica, nenhuma diretriz para a segurança pública que vá além dos antigos slogans, nenhuma meta para a educação ou plano de ação para a saúde. O debate propositivo foi sumariamente substituído por um mantra uníssono, repetido à exaustão: “é preciso tirar o PT”.
Essa retórica desse “samba de uma nota só”, focada unicamente na destruição do adversário e esvaziada de futuro, encontrou na lavagem de roupa suja familiar o seu ápice de exposição, demonstrando que o antipetismo radical se tornou o único cimento que ainda mantém as aparências de união ideológica no clã.
Histórico de um método: “governar” contra o “fantasma”
Para compreender o cenário atual da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, é indispensável recuar no tempo e observar que a pobreza vocabular e a paranoia programática não são novidades, mas sim o método operacional da família. Em 2018, Jair Bolsonaro pavimentou seu caminho rumo ao Palácio do Planalto utilizando uma cartilha rigorosamente idêntica. Durante a campanha daquele ano, o então candidato esquivava-se sistematicamente de debates até mesmo rasos e simplórios sobre o destino da nação, limitando sua plataforma de ideias ao compromisso de “derrotar a esquerda” e “livrar o Brasil de um comunismo” puramente imaginário.
Quando emparedado em entrevistas por jornalistas que exigiam a apresentação de propostas concretas para problemas estruturais do país, o patriarca invariavelmente se enrolava. O roteiro era previsível: Bolsonaro iniciava as respostas desviando para a pauta de costumes, falando sobre obsessões ligadas a questões sexuais e à necessidade de “proteger crianças”. Sem repertório técnico para sustentar o diálogo sobre economia ou infraestrutura, a engrenagem discursiva travava e ele terminava a fala culpando “Lula e o PT”, ignorando o fato de que, àquela altura, o país sequer era governado pelos petistas, mas sim pela gestão de direita de Michel Temer (MDB).
Anos após a passagem pela Presidência, a máquina de propaganda do clã manteve o mesmo modus operandi. A incapacidade de formular conceitos de gestão pública minimamente sofisticados cristalizou-se como uma marca registrada que agora, na campanha do filho 01, atinge um nível de saturação inédito.
A crise do vídeo: o antipetismo como escudo mútuo
Nem mesmo o constrangedor embate público entre Michelle e Flávio foi capaz de alterar a frequência do discurso bolsonarista. No vídeo que detonou a crise, em que a ex-primeira-dama choramingava publicamente o tratamento humilhante e a suposta fritura que vinha sofrendo por parte do enteado nos bastidores do PL, a justificativa para a manutenção da aliança, apesar das dores, foi o velho espantalho político. Michelle fez questão de selar que “entende a direita se unindo só para vencer o PT”, reduzindo qualquer aliança ou projeto de poder a uma mera reação defensiva e eleitoral.
A tréplica de Flávio Bolsonaro operou na exata mesma sintonia. Acuado e tentando estancar o sangramento de sua imagem perante o eleitorado conservador após o ataque da madrasta, o senador blindou-se atrás do jargão de sempre. Em sua resposta pública, ignorando as acusações de isolamento e a falta de propostas de sua própria pré-campanha, Flávio declarou:
“Eu, Michelle, você, que está me assistindo, a gente tem o mesmo objetivo, que é o melhor pro nosso país e livrar o Brasil das mãos sujas do PT”.
A declaração do pretenso presidenciável resume o vácuo de ideias da candidatura: para o primogênito, “o melhor para o país” resume-se, de forma tautológica, a extirpar o partido rival do poder.
Coro dos irmãos e o esvaziamento do debate
Como em toda crise que afeta o núcleo duro da família, os demais irmãos rapidamente entraram em cena para tentar desenhar uma narrativa de controle de danos nas redes sociais, mas acabaram por reforçar a tônica da escassez intelectual do movimento. Carlos Bolsonaro, historicamente o gestor das redes e da comunicação agressiva da família, correu para as plataformas digitais para defender o irmão mais velho. Contudo, entregou zero propostas para os problemas reais do cidadão brasileiro, limitando-se a disparar que: “Temos a responsabilidade de ajudar a livrar o povo das garras do PT e da organização”.
Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro, o 03, mantinha a sua habitual estratégia de distração e engajamento superficial. Diretamente dos EUA, para onde fugiu e onde acompanhava a partida da Seleção Brasileira e monitorava de longe o incêndio provocado por Michelle, o deputado federal não emitiu uma única linha de reflexão sobre os rumos econômicos ou sociais que a candidatura do irmão propõe para o Brasil. Em vez disso, focou em criar falsas equivalências para desviar o foco da crise interna, publicando em tom de provocação infantil: “O filho do Bolsonaro está aqui… E o filho do Lula?”.
A falta de projeto como calcanhar de Aquiles
A radiografia do comportamento do clã Bolsonaro ao longo desta semana carimba uma realidade incômoda para o eleitorado: a candidatura da extrema direita abdica do papel de governar e planejar o Estado brasileiro para se alimentar exclusivamente do antagonismo. Variantes discursivas como “derrotar o Lula”, “varrer a esquerda” ou “salvar o país do comunismo” funcionam como uma cortina de fumaça conveniente para esconder a incapacidade técnica de apresentar soluções para a questões econômicas, de emprego ou para os gargalos da infraestrutura nacional.
Ao transformar a disputa presidencial em uma guerra santa puramente destrutiva, onde o único objetivo real é a deposição do atual mandatário, a família Bolsonaro arrisca saturar uma fórmula que funcionou em 2018, mas que hoje expõe suas fraturas. Diante de um país que cobra respostas concretas para o cotidiano, o “samba de uma nota só” do clã pode, finalmente, cobrar o seu preço mais alto, deixando evidente que por trás do barulho das redes sociais existe um imenso e preocupante vazio de ideias. Aliás, a sofrível gestão do patriarca, por longos e intermináveis quatro anos, já demonstrou isso na prática.