Em 2026, partidos e candidatos terão à disposição um caixa de 56 bilhões de reais para campanhas eleitorais, volume mais de dez vezes superior ao dinheiro privado recebido em 2014 (5 bilhões). O recorde é consequência direta da proibição das doações de empresas, decidida pelo Supremo Tribunal Federal em 18 de setembro de 2015, que tinha como objetivo moralizar as eleições, mas acabou ampliando o assédio da classe política ao orçamento público.
Origem dos recursos
A maior fatia vem das emendas parlamentares – parcela do Orçamento controlada por deputados e senadores. O valor saltou de 450 milhões de reais em 2015 para 40 bilhões de reais em 2024. Para 2026, metade da soma recorde de 49,9 bilhões é reservada às emendas individuais, que podem ser livremente distribuídas por congressistas. Estão incluídos desde asfaltamento de ruas e eventos até construção de hospitais e compra de armas e viaturas. As chamadas “emendas Pix”, com montante de 7 bilhões de reais, podem ser transferidas diretamente a estados e municípios sem necessidade de convênio.

Outra parte expressiva vem de dois fundos abastecidos com dinheiro público: o fundo eleitoral, pago apenas em ano eleitoral, que chegou a 4,9 bilhões de reais em 2026, e o fundo partidário, anual, que cobre despesas como passagens aéreas, hotéis, jatinhos, advogados e consultorias de marketing político. Como o rateio é baseado no tamanho das bancadas, as maiores legendas levam a maior parte. Os três maiores agrupamentos na Câmara – bolsonarismo, lulismo e Centrão – controlam metade do fundo eleitoral.
Controle e abusos
A fiscalização sobre as emendas é frágil. Em março de 2026, o STF condenou à prisão os deputados federais Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, ambos do PL do Maranhão, por cobrarem até 1,6 milhão de reais de propina em troca de emendas ao município de São José de Ribamar. A Polícia Federal realiza operações frequentes desde 2024, quando o ministro Flávio Dino, do STF, baixou novas regras de transparência. “Temos uma máquina que não é auditável. As emendas geram dezenas de milhares de documentos fiscais por ano que não precisam ser declarados nas eleições”, afirma Bruno Bondarovsky, pesquisador associado da PUC-Rio e idealizador da plataforma Central das Emendas.

Ciclo de perpetuação
As maiores bancadas detêm mais poder de negociação e abocanham a maior parte das emendas, o que lhes permite eleger mais deputados e senadores, formando um círculo vicioso. “Existe um conflito de interesses direto: quanto mais recursos o parlamentar tem para direcionar à base, mais votos ele recebe e mais incentivo tem para conseguir mais verba”, explica Eric Brasil, diretor da LCA Consultoria. Na eleição de 2024, a taxa de reeleição de prefeitos atingiu 81%, a maior da história.
O fundo eleitoral empodera caciques como Antonio Rueda, presidente do União Brasil, que tem o maior naco do fundo, e Valdemar Costa Neto, do PL. Edinho Silva, presidente do PT, tem o terceiro maior caixa para reforçar a campanha de Lula, que ainda conta com a máquina do governo em pleno funcionamento na pré-campanha.

Blindagem partidária
Em maio de 2026, a Câmara aprovou uma minirreforma que facilita o uso do dinheiro público e fragiliza mecanismos de fiscalização. O projeto cria teto para multas por irregularidades na prestação de contas, permite parcelar débitos em até 15 anos, fixa prazo de três anos para prescrição dos processos, extingue dívidas em caso de fusão partidária e proíbe o bloqueio de bens por falta de pagamento. “É uma enorme anistia e autoimunidade para os partidos”, critica Ana Claudia Santano, diretora-executiva da Transparência Eleitoral Brasil. Também em maio, o Congresso aprovou mudanças na LDO para permitir transferências a estados e municípios durante o período eleitoral, antes vetadas nos três meses anteriores à votação.
Pesquisa Datafolha de maio mostra que apenas 15% dos entrevistados avaliam como ótimo ou bom o trabalho do Legislativo.
Comparações internacionais
Não há um modelo único de financiamento eleitoral. Na França, doações empresariais são proibidas, com limites individuais e de gastos. A Alemanha permite doações de pessoas e empresas, acrescentando recursos públicos proporcionais ao arrecadado. Nos EUA, as campanhas bilionárias são quase integralmente custeadas por corporações.
O dilema brasileiro – a escalada do assédio eleitoral ao Orçamento – exige que as instituições enfrentem o tema. Melhorar a qualidade do gasto público, inclusive o eleitoral, é uma prioridade.