A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou, em 12 de junho, a formação de um novo El Niño, com 63% de probabilidade de que as temperaturas da superfície do mar superem 2,0 °C na região monitorada do Pacífico. Caso se confirme, o evento será classificado como 'muito forte' e pode figurar entre os maiores registrados desde 1950.
Impactos no agronegócio
O fenômeno ocorre em um momento de fragilidade financeira do setor agropecuário brasileiro, que já enfrenta endividamento recorde, juros elevados, encarecimento de insumos e queda das commodities. De acordo com Claudio Montoro, professor do Insper e advogado especializado em recuperação judicial, o El Niño 'é um catalisador de riscos para um setor que já opera com margens de lucro comprimidas'.
A Genial Investimentos aponta que fertilizantes, transporte de cargas e bandeiras tarifárias de energia têm pressionado fortemente os custos operacionais no campo. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) destaca que 'o produtor sente o impacto antes mesmo de plantar. São mais sacas para garantir o mesmo conjunto de insumos e tecnologias'.
A taxa Selic também encarece o crédito rural, e as projeções de mercado indicam menos cortes nos juros, prolongando a situação crítica dos produtores. David Telio, professor do IBDA e diretor da TerraMagna, avalia que a crise financeira no agro deve se agravar.
Quebra de safra e regiões mais expostas
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam risco elevado de quebra de safra em algumas regiões. As culturas mais expostas são soja, milho, trigo, algodão e, em algumas localidades, café e cana-de-açúcar. Os efeitos variam regionalmente:
- Sul: chuvas torrenciais e inundações dificultam o manejo, favorecem doenças fúngicas e prejudicam a qualidade dos grãos.
- Norte e Nordeste: secas severas reduzem os reservatórios das hidrelétricas.
- Centro-Oeste e Matopiba: atraso das chuvas e veranicos severos no início do ciclo.
- Sudeste e Centro-Oeste: calor mais frequente, pancadas mal distribuídas e mudanças nas frentes frias.
Roberto Araújo, gerente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), ressalta que 'exige-se que a gestão profissional, o planejamento baseado em dados meteorológicos e o uso de instrumentos de proteção, como o seguro rural, atuem como amortecedores essenciais para preservar a competitividade do setor'.
Endividamento e recuperação judicial
Dados da Serasa Experian mostram que o agronegócio fechou 2025 com 1.990 solicitações de recuperação judicial, alta de 56,4% ante 2024. Os produtores rurais pessoa física lideram com 853 pedidos (aumento de 50,7%). Mato Grosso, maior produtor nacional, registrou 332 solicitações, seguido por Goiás e Paraná.
A inadimplência no campo subiu para 8,2% da população no último trimestre de 2025, um ponto percentual a mais que no ano anterior. Marcelo Pimenta, diretor de agronegócio da Serasa Experian, afirma: 'Instituições financeiras, diante da incerteza, priorizam agora análises mais robustas e maiores garantias, reduzindo o apetite ao risco'.
Pressão geopolítica e fertilizantes
O cenário geopolítico adiciona riscos, especialmente com o desabastecimento de fertilizantes devido ao fechamento do Estreito de Ormuz e conflitos no Irã. Levantamento da CNA aponta que o volume de importações físicas de fosfatados e nitrogenados caiu 4% na comparação entre os primeiros quadrimestres de 2025 e 2026, enquanto o valor gasto aumentou 16%. A entidade ressalta que 'esse movimento exige mais capital de giro e aumenta a exposição do produtor ao câmbio, à logística internacional e à geopolítica'.
Inflação e energia nas cidades
Os efeitos no campo devem se refletir no custo de vida urbano. O mercado financeiro projeta que o fator climático pode adicionar até 0,8 ponto percentual ao IPCA de 2026, que já está sob pressão. O boletim Focus do Banco Central indica inflação de 5,11% em 2026, mais de 0,6 ponto acima da meta.
O setor elétrico está em alerta: a seca no Norte e Nordeste pode reduzir drasticamente os reservatórios, elevando a dependência de usinas térmicas, mais caras. Fontes ouvidas pela reportagem avaliam que esse choque de custos em alimentos e energia força o Banco Central a manter os juros altos por mais tempo.