Um El Niño de forte intensidade, previsto para os próximos meses, ameaça desestabilizar o clima global e a produção agrícola, mas estoques mundiais de grãos próximos a recordes, condições favoráveis em algumas regiões produtoras e o planejamento antecipado podem limitar os danos, segundo especialistas e dados oficiais.

O fenômeno, que costuma provocar calor e seca na Ásia e chuvas intensas nas Américas, deve se intensificar e pode superar eventos anteriores que causaram perdas de dezenas de bilhões de dólares. No entanto, Shirley Mustafa, economista da FAO, destacou que os estoques globais elevados – especialmente de arroz e outros cereais – devem amortecer parte do impacto.

Estoques globais como amortecedor

Segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), os estoques mundiais de trigo devem atingir 279,95 milhões de toneladas métricas no início do ano agrícola, em 1º de julho, o maior nível em cinco anos. A Rússia, maior exportadora global, colhe uma safra excepcional, enquanto persistem preocupações com a safra dos EUA, afetada por seca. Já as reservas de arroz alcançaram recorde de 196,16 milhões de toneladas no início de 2026, com a Índia – responsável por 40% das exportações – mantendo estoques cinco vezes acima da meta governamental. A Indonésia também registra estoque recorde.

Eventos anteriores, como o super El Niño de 2015/16 e o de 1997/98, causaram secas, inundações, incêndios florestais e perdas agrícolas em larga escala. Desta vez, no entanto, safras consecutivas recordes elevaram os estoques nos principais países consumidores e exportadores.

Preparativos no Brasil e no mundo

O impacto do El Niño dependerá da preparação de cada país, afirmou Sutarto Alimoeso, presidente da Associação de Moinhos e Empresários do Arroz da Indonésia, citando melhorias em irrigação e bombeamento de água. Enquanto Austrália, Sudeste Asiático e Índia enfrentam maior ameaça, China, região do Mar Negro e Europa devem sofrer condições menos severas, segundo pesquisas do Parlamento britânico. As Américas tendem a receber mais chuvas, o que pode representar risco apenas em caso de inundações.

No Rio Grande do Sul, comunidades ainda se recuperam das enchentes devastadoras de maio de 2024, que mataram 181 pessoas. Em Porto Alegre, o bairro Sarandi ainda exibe marcas da inundação. A moradora Marilian Fontoura expressou medo: “Se chover de novo, se vier outra chuva forte, outra enchente, o que vai acontecer? Vamos perder tudo de novo”. O prefeito Sebastião Melo (MDB) afirmou que a cidade está mais segura e que trabalha na recuperação de estações de bombeamento, diques e comportas. A concessionária de água e esgoto selecionou um consórcio para obras de proteção contra enchentes, no valor de R$ 24,2 milhões, financiadas pelo estado.

O governo estadual também investe R$ 38 milhões em um centro de logística para desastres e R$ 33 milhões em programa de preparação para o El Niño. Moradores, porém, reclamam da paralisação de um projeto de dique por disputas de desapropriação.