O Serviço Nacional de Meteorologia da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou, na quinta-feira (11), a formação de um novo episódio de El Niño no Oceano Pacífico. A confirmação reacendeu a preocupação com os impactos climáticos no Rio Grande do Sul, especialmente após as enchentes de 2024. Segundo a agência, há 63% de probabilidade de que o fenômeno atinja intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. As projeções indicam que o El Niño pode rivalizar ou superar os históricos episódios de 1982-1983 e 1997-1998.
Probabilidades e impactos históricos
De acordo com a MetSul, o patamar de um Super El Niño já pode ser alcançado no inverno pelo Índice Niño Oceânico (ONI). No Brasil, os efeitos mais significativos costumam ocorrer na região Sul. Historicamente, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná registram volumes de chuva acima da média durante episódios de El Niño, especialmente entre a primavera e o verão, elevando o risco de temporais, enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra.

O climatologista Francisco Eliseu Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), destacou que a confirmação do El Niño ocorre em um contexto de aquecimento global. "É um cenário, de modo geral, similar aos anos de 2023, 2024 e 2025. Considerando que oficialmente está declarado o El Niño a partir de junho deste ano, a combinação do El Niño com um planeta mais quente favorece muito o aumento da temperatura e da precipitação no Sul do Brasil", afirmou. Para o próximo trimestre, a expectativa é de temperaturas ligeiramente acima da média e aumento das precipitações, especialmente nas regiões norte e noroeste do Rio Grande do Sul, além do oeste de Santa Catarina e do Paraná.
Vulnerabilidade do Rio Grande do Sul
Dados da Embrapa apontam que as enchentes de 2024 atingiram mais de 550 mil hectares, impactaram mais de 200 mil propriedades e resultaram na perda de cerca de 500 hectares de vinhedos devido a deslizamentos. O estudo identificou danos em pelo menos 20 classes de solos, incluindo acúmulos de areia de até dois metros e perda de fertilidade.

Aquino ressaltou que a mudança do clima tem dominado os eventos extremos. "O aumento da temperatura média no estado passa de 1,5 grau. Isso significa que a gente tem um novo normal climático", disse. Ele defende investimentos em infraestrutura, fortalecimento dos sistemas de alerta, Defesa Civil e educação ambiental. "Em uma inundação extrema, o importante é salvar vidas", afirmou.
Especialistas do Cemaden avaliam cenário
A diretora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Regina Alvalá, e o coordenador-geral Marcelo Seluchi ressaltaram que não é possível afirmar que o estado enfrentará um desastre semelhante ao de 2024. O evento de 2024 resultou de uma combinação excepcional de fatores atmosféricos e oceânicos. Eles lembraram que outros El Niños muito fortes, como os de 1997/1998 e 2015/2016, não produziram desastres comparáveis.

Os especialistas destacaram que a intensidade do fenômeno ainda apresenta incerteza devido à "barreira de previsibilidade da primavera". Com oceanos mais aquecidos, a comparação com eventos históricos deve ser feita com cautela. Eles apontaram que levantamentos indicam aumento na frequência de El Niños: nos primeiros 60 anos de uma série de 120 anos, apenas um episódio muito forte foi registrado, contra cinco nos 60 anos seguintes.
Recomendações para prevenção
Entre as prioridades apontadas pelos especialistas estão: fortalecimento dos sistemas de monitoramento, qualificação das Defesas Civis municipais, planejamento urbano para evitar ocupações em áreas de risco, melhorias na drenagem, recuperação da vegetação ciliar, reflorestamento, simulados e educação para percepção de riscos.
Eles também chamaram atenção para a realidade dos pequenos municípios gaúchos: dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, 431 possuem menos de 20 mil habitantes, limitando a capacidade técnica e financeira. Os impactos dos desastres costumam ser mais severos entre populações vulneráveis, especialmente idosos — o estado o mais envelhecido do país.
Previsão da MetSul e preparação do estado
A sócia-diretora da MetSul Meteorologia, Estael Sias, afirmou que os dados indicam potencial elevado de intensidade forte ou muito forte, com pico entre outubro e dezembro de 2026. "O risco de enchente existe e é alto em 2026, sobretudo no fim do inverno e ao longo da primavera", declarou. Ela alertou que as enchentes de 2024 alteraram o território, tornando difícil avaliar a vulnerabilidade atual.
Em resposta, o governo do Rio Grande do Sul anunciou o Programa Estadual de Preparação para Eventos Extremos (Prepara RS – El Niño), com investimentos de R$ 71,3 milhões. O programa é estruturado em 11 eixos, incluindo fortalecimento da Defesa Civil, monitoramento, prevenção e logística humanitária. Até 141 municípios considerados mais suscetíveis poderão receber repasses entre R$ 200 mil e R$ 300 mil para sistemas de monitoramento, drenagem e sinalização de rotas de evacuação.
O governador Eduardo Leite (PSD) afirmou que a preparação já vinha sendo desenvolvida e que o decreto intensifica esse trabalho. "Temos a certeza de que eventuais ocorrências encontrarão um Estado com capacidade de resposta para proteger sua população", declarou.