Em meio às críticas do governo de Donald Trump ao Pix, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) sugeriu na quarta-feira (3/6) que o Brasil pode "ir para a mesa de negociação" ao mencionar o uso do Zelle, sistema de pagamentos privado americano que ele chamou de "o Pix americano".
Ao canal TMC News, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro disse que os "EUA têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle". "Então dá pra você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons argumentos", afirmou o ex-deputado, que vive nos EUA há mais de um ano fazendo articulações políticas.
A declaração ocorre em meio à pressão americana sobre o Pix, alvo de um documento do governo Trump que propõe uma nova taxação de 25% sobre produtos brasileiros. O documento acusa o Brasil de prejudicar empresas americanas de pagamento eletrônico, favorecendo o Pix, e critica o papel duplo do Banco Central como regulador e operador do sistema.
Em pré-campanha à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem usado o argumento de que os EUA e a família Bolsonaro seriam contra o Pix. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem citado que o Pix foi lançado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro, embora o projeto tenha sido iniciado em 2018, no governo Michel Temer.
As declarações de Eduardo Bolsonaro repercutiram no campo governista. O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) chamou os filhos do ex-presidente de "entreguistas": "Eduardo Bolsonaro confessa que quer entregar nosso Pix público e gratuito, operado pelo nosso Banco Central, aos americanos. Nós não vamos permitir". A ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR) disse que Eduardo "quer trocar o nosso Pix pelo sistema americano chamado Zelle, como ponto de negociação pra retirar a taxação americana, que eles ajudaram articular".
Diante das críticas, Eduardo publicou nas redes sociais que jamais falou em substituir o Pix pelo Zelle. "Pix foi criado pelo meu pai, sem taxas e assim deve permanecer. Sou pró-PIX", escreveu no X.
Diferenças entre Pix e Zelle
Diferentemente do Pix — sistema público criado e operado pelo Banco Central —, o Zelle é um sistema privado operado por bancos americanos desde 2017 pela Early Warning Services, empresa coproprietária de sete grandes bancos dos EUA. O serviço está disponível em mais de 2,4 mil aplicativos bancários, e a participação é voluntária. No Brasil, a adesão ao Pix é obrigatória para instituições financeiras com mais de 500 mil contas ativas.
O Zelle alcançou 151 milhões de usuários cadastrados em 2024, movimentando mais de US$ 1 trilhão (cerca de R$ 5 trilhões). O Pix, por sua vez, é usado por mais de 170 milhões de pessoas físicas no Brasil, ou 80% da população, movimentando R$ 35,4 trilhões em 2025.
Ambos permitem transferências rápidas usando e-mail ou telefone. O Pix é instantâneo, disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana. O Zelle deposita o dinheiro "em poucos minutos", mas pode haver atrasos dependendo da instituição financeira do destinatário.
O Pix é gratuito para pessoas físicas, MEIs e empresários individuais; pessoas jurídicas pagam taxas de 0,89% a 1,45% por transação. No Zelle, "normalmente não há tarifas" para consumidores, mas bancos podem cobrar taxas.
Em artigo de 2025, o economista Paul Krugman elogiou o Pix, chamando-o de "uma espécie de versão pública do Zelle", mas destacou que o Pix é mais fácil de usar e se tornou "simplesmente enorme", usado por 93% dos adultos brasileiros.
Reações e contexto
Após a citação do Pix no relatório do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o sistema, afirmando que a conclusão da investigação decorre de "informações incompletas". A entidade destacou que o Pix é uma infraestrutura de pagamento, não um produto comercial, e que o modelo é aberto e não discriminatório.
Uma fonte próxima às negociações entre Brasil e EUA disse à BBC News Brasil que o endurecimento do tom americano pode estar ligado ao bloqueio do Brasil, na OMC, a uma proposta dos EUA de estender a moratória de tarifas sobre transmissões eletrônicas. Além disso, a Suprema Corte americana derrubou em fevereiro o tarifaço de Trump baseado na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional, levando o governo a buscar alternativas como a Seção 301, usada contra o Brasil.
A jurista Camila Villard Duran, do Brookings Institute, aponta que a pressão sobre o Pix insere-se em um fenômeno mais amplo de transformação da ordem monetária internacional. "O Pix já não é apenas um sistema de pagamentos eficiente. Ele representa um modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre dados e fluxos financeiros", afirma. Ela destaca que os EUA fazem críticas semelhantes a países como Índia, Tailândia e Paquistão, onde políticas nacionais promovem sistemas domésticos de pagamento.
Para Duran, o que está em jogo é o controle sobre infraestruturas consideradas críticas. "A moeda, na economia digital, torna-se cada vez mais informação e, nesse contexto, o controle jurisdicional sobre esses dados passa a ser um elemento central do poder monetário estatal", conclui.
Com informações de BBC News Brasil.