O ecologista norte-americano John Terborgh, referência mundial em ecologia tropical e gestão de áreas protegidas, fez um alerta durante sua participação na Conferência Nacional de Unidades de Conservação para a Biodiversidade (UCBIO), realizada no Brasil: a crescente desigualdade social e econômica abre caminho para regimes oligárquicos e fascistas, que por sua vez adotam uma visão utilitarista e mercantilista da natureza, dificultando a conservação ambiental.
Oligarquia nos Estados Unidos
Terborgh, professor emérito da Universidade Duke e com 90 anos de idade, não poupou críticas à situação política de seu país. Para ele, os Estados Unidos se transformaram em uma oligarquia, onde o poder está concentrado nas mãos de um pequeno grupo de bilionários. Citou como exemplo o empresário Elon Musk, que recentemente se tornou a primeira pessoa trilionária do planeta, com patrimônio avaliado na casa do trilhão de dólares. Segundo o pesquisador, essa concentração de riqueza é sintoma de problemas maiores, que afetam inclusive quem luta pela preservação da biodiversidade.

“A desigualdade leva ao surgimento de oligarquias, o que leva ao fascismo e a rivalidades entre superpotências. E então temos que lidar com guerras. Além dos desafios da inteligência artificial e mudanças climáticas, que afetarão a todos nós de maneiras diferentes”, afirmou Terborgh.
Voz da sociedade civil sob risco
O ecologista destacou que a criação de áreas de proteção integral, como parques, sempre dependeu de fatores políticos, com influência da comunidade científica, filantropos e ativistas. No entanto, em uma lógica oligárquica — mesmo que disfarçada de democracia —, essas vozes perdem espaço. Para Terborgh, a participação popular foi essencial para os avanços da conservação no século 20 e início do século 21. Ele fez um apelo direto à plateia brasileira: “não deixem isso acontecer no Brasil”.
“Nós, como membros de sociedades democráticas, precisamos nos organizar ou todos nós corremos o risco de um futuro de oligarquias nas quais nossas vozes não irão mais contar. Foram as nossas vozes que fizeram os sucessos da conservação do século 20 e início do século 21 possíveis. Mas se perdermos essa voz, ficaremos encurralados em um mundo que nenhum de nós teria escolhido. Isso é sério e iminente, e apenas o poder das pessoas pode vencer isso”, declarou.

Liderança pelo exemplo
Terborgh acrescentou que o mundo precisa de países que liderem pelo exemplo, demonstrando que medidas para enfrentar as mudanças climáticas e proteger a biodiversidade não destruirão a economia nem gerarão desemprego. Ele reconheceu que a batalha pela conservação é contínua e contra forças poderosas e persistentes.
“Para conservar a natureza, temos que vencer uma batalha contra uma força poderosa e persistente, e temos que continuar vencendo-a indefinidamente, pois aqueles que têm uma visão diferente do valor da natureza são persistentes e determinados. Por isso, não podemos descansar”, concluiu.

Grandes áreas protegidas e refaunação
As pesquisas de Terborgh ajudaram a evidenciar o papel dos predadores na regulação de ecossistemas e no equilíbrio da cadeia alimentar. Para manter esses animais, como lobos, ursos e onças, é essencial dispor de grandes áreas de proteção integral. Em um mundo com mais de 8 bilhões de pessoas, essa tarefa se torna cada vez mais difícil.
“Se você quer ter espécies como lobos, ursos, onças… você precisa de áreas grandes de reserva. Se a área for muito pequena eles serão extintos. Os únicos locais onde você consegue manter populações viáveis e reprodutivas, capazes de sobreviver no longo prazo, desses predadores de topo, são em grandes áreas”, explicou.
O ecologista também defendeu a prática do rewilding, conhecida no Brasil como refaunação, que consiste em reintroduzir animais extintos localmente para restaurar o equilíbrio ecológico. Citou como exemplo bem-sucedido a reintrodução de onças-pintadas e outras espécies no norte da Argentina.
“Rewilding vai ser a principal ferramenta para recuperar a estabilidade de ecossistemas, porque se peças importantes estão faltando, o ecossistema colapsa. Você não consegue manter a biodiversidade de um ecossistema se faltam elementos-chave como os predadores de topo”, comentou.
Trajetória e produção científica
Com mais de 250 artigos científicos publicados e oito livros, Terborgh tem uma relação afetiva com a América Latina, especialmente com a Amazônia peruana, onde trabalhou por mais de trinta anos. Suas contribuições ajudaram a consolidar debates sobre biodiversidade, biogeografia e o funcionamento de áreas protegidas.