Profissionais de saúde no leste da República Democrática do Congo atuam contra o tempo para tratar pacientes com Ebola, conter os sintomas e evitar a propagação do vírus, enquanto o número de casos continua a aumentar. Todos os pacientes suspeitos ou confirmados são isolados, e qualquer pessoa que entre em contato com eles deve usar equipamentos de proteção individual (EPIs) e outros dispositivos para reduzir o risco de transmissão.

Um dos equipamentos utilizados é a Cube, uma unidade de tratamento autônoma para doenças altamente infecciosas, transparente, que permite atendimento médico sem contato direto. Criada após o surto de Ebola na África Ocidental (2014-2016), a ONG médica Alliance for International Medical Action (Alima) desenvolveu a estrutura, que permite que equipes médicas tratem pacientes do lado de fora usando luvas em formato de túnel acopladas à estrutura.

"Você não precisa usar o equipamento completo de proteção individual para entrar em contato com os pacientes, então este é um dispositivo muito importante nesse tipo de surto", afirmou o médico Papys Lame, coordenador da resposta ao Ebola da Alima, à BBC. Lame disse que a estrutura garante "o padrão de atendimento necessário, uma experiência positiva para o paciente e a proteção dos profissionais de saúde".

No entanto, não há unidades Cube suficientes na República Democrática do Congo para o número de casos suspeitos. Segundo a Alima, duas estruturas chegaram no fim de semana a Bunia, capital provincial de Ituri e epicentro do surto, e devem começar a ser usadas em breve. Outras duas Cubes estão a caminho da cidade.

Os estoques de EPIs também são limitados. Na sexta-feira (29/5), o Conselho Internacional de Enfermeiros (ICN) alertou para a escassez e afirmou que os enfermeiros no país "temem por sua segurança porque não têm equipamentos necessários para se proteger".

Sintomas e diagnóstico

O vírus Ebola se espalha de pessoa para pessoa por meio do contato com fluidos corporais infectados. A demora na confirmação dos casos nos primeiros dias do surto permitiu que o vírus se espalhasse de Ituri para as províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul, além da vizinha Uganda.

"Infelizmente, o Ebola começa de forma muito vaga, com dor de cabeça, febre e sensação de fraqueza", explicou o médico Armand Sprecher, especialista em medicina de emergência e epidemiologista especializado em Ebola da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). "As pessoas sentem mal-estar, dores musculares e nas articulações, e depois desenvolvem vômito, dor abdominal e diarreia", afirmou Sprecher à BBC, acrescentando que esses sintomas "são comuns em muitas doenças". Doenças infecciosas frequentes na região, como malária e febre tifoide, compartilham sintomas iniciais com o Ebola. Um sintoma menos comum, que pode aparecer mais tarde, é o sangramento, incluindo pelo nariz, gengivas e vagina, além de sangue no vômito e nas fezes.

Todas as pessoas com sintomas são inicialmente classificadas como casos suspeitos e encaminhadas para centros de tratamento. Lame, da Alima, afirmou que as pessoas com suspeita passam por coleta de amostras para determinar se estão infectadas. Caso o primeiro teste dê negativo, uma nova amostra é coletada 48 horas depois. Se o segundo teste também der negativo, o paciente deixa de ser considerado caso suspeito e é encaminhado para um hospital ou liberado para casa, se não apresentar mais sintomas. Para aqueles que testam positivo, os sintomas são tratados até desaparecerem, e os pacientes "precisam ter dois resultados laboratoriais negativos antes de receber alta", segundo Lame.

Embora pacientes com Ebola precisem ficar isolados, Lame ressaltou a importância do bem-estar psicológico dos doentes, algo que a Cube ajuda a preservar. O formato da estrutura permite que pessoas visitem familiares internados. Em surtos anteriores, explicou, "os pacientes eram separados de suas famílias e comunidades e frequentemente relutavam em buscar tratamento".

Desafios e conflitos

Enquanto equipes médicas trabalham para tratar os sintomas, os testes e a confirmação dos casos têm avançado lentamente. O ICN também afirmou haver escassez de kits de testagem. As autoridades afirmam que já houve mais de 282 casos confirmados de Ebola, incluindo 42 mortes, além de mais de 1.000 casos suspeitos, dos quais mais de 220 terminaram em morte.

Atualmente, não existem medicamentos aprovados contra o vírus Bundibugyo, variante do Ebola responsável por este surto. Os pacientes recebem principalmente cuidados de suporte, incluindo oxigênio, ventilação e fluidos intravenosos para evitar desidratação e repor eletrólitos. Também não há vacina aprovada, embora vacinas experimentais estejam em desenvolvimento.

Por causa da demora na confirmação dos casos, Sprecher, da MSF, afirmou que os profissionais de saúde não têm o "mapeamento habitual da transmissão" observado em surtos anteriores. "Antes, conseguíamos saber se a doença estava passando por uma vila, por uma família ou por pessoas que participaram de um funeral. Não temos esse tipo de informação para nos orientar", explicou.

Dezesseis profissionais de saúde tiveram diagnóstico confirmado de Ebola durante este surto. Na semana passada, cinco pessoas receberam alta após se recuperarem, sendo quatro enfermeiros e uma trabalhadora de laboratório. "Perdemos pacientes, e isso é psicologicamente difícil", afirmou Lame, acrescentando: "Somos humanos, então naturalmente temos medo de estar sob risco constante diante de uma doença para a qual não existe tratamento." O trabalho também é "fisicamente exaustivo", especialmente por causa do clima equatorial.

Sprecher afirmou que, mesmo quando há EPIs disponíveis, usá-los "é um problema, porque, assim que você veste aquilo, começa a sentir muito, muito calor", o que impede jornadas longas. "Você tem cerca de uma hora antes de precisar tirar o equipamento, porque as pessoas superaquecem e suam muito. Esse suor não evapora para resfriar o corpo, apenas se acumula dentro das botas, enquanto elas continuam com calor, começam a ficar tontas e a perder a clareza mental." "Se os profissionais de saúde não estiverem mais seguros, então não é mais seguro para eles trabalharem lá", explicou Sprecher.

Existem protocolos de segurança, como o trabalho em duplas. "Enquanto você realiza uma tarefa, há um observador externo acompanhando e alertando você. Por exemplo, se suas mãos forem inconscientemente em direção ao rosto, ele dirá: 'Não toque no rosto, cuidado!'", explicou Sprecher.

Durante uma visita a Ituri no fim de semana, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, pediu às comunidades que colaborassem com as autoridades de saúde após moradores atacarem centros médicos em protesto contra as rígidas regras de sepultamento. Os corpos de pessoas com suspeita de morte por Ebola não podem ser manipulados por familiares, para evitar o risco de transmissão.

Outro fator que dificulta a resposta ao surto é o conflito em andamento na República Democrática do Congo. Antes da visita, Ghebreyesus considerou a província como o centro de uma "colisão catastrófica entre doença e conflito" e afirmou que não seria possível "construir confiança nas comunidades ou isolar os doentes enquanto as bombas continuam caindo". Ituri está sob regime militar desde 2021, e grandes áreas das províncias de Kivu do Norte e Kivu do Sul estão sob controle do grupo rebelde M23.

"Os profissionais da linha de frente estão arriscando tudo, enquanto os ataques às unidades de saúde tornam quase impossível rastrear casos e seus contatos", escreveu Ghebreyesus na rede social X, pedindo que todas as partes envolvidas no conflito concordem com um cessar-fogo para permitir acesso seguro às equipes médicas. Apesar disso, algumas organizações humanitárias conseguiram entrar em áreas controladas pelos rebeldes. A Alima afirmou à BBC que mantém profissionais de saúde em regiões sob controle rebelde, incluindo Goma, a maior cidade do leste do país. Da mesma forma, a MSF afirmou ter reformado e reaberto um centro de tratamento de Ebola em Goma, além de apoiar o treinamento de profissionais de saúde na cidade.

Com informações de BBC News Brasil.