O ministro da Fazenda, Dario Durigan, manifestou-se favorável a uma discussão sobre possíveis ajustes na metodologia de apuração da inflação no Brasil. Em entrevista ao podcast da Warren Investimentos, gravada na sexta-feira (12) e divulgada nesta segunda (15), ele argumentou que estudiosos apontam defasagem na composição dos índices de preços, com peso excessivo para itens que perderam relevância e subrepresentação de bens e serviços que ganharam importância, como assinaturas de streaming e serviços de nuvem.

Revisão da cesta do IPCA

“O nosso modelo, por exemplo, dá peso para coisas que hoje não têm mais o peso que tinham anteriormente, e coisas que hoje têm peso, assinatura de streaming, serviço de nuvem às vezes já pesam muito mais do que algo que estava na metodologia há décadas”, afirmou Durigan. Ele defendeu que o debate sobre aprimoramentos no boletim Focus do Banco Central também prossiga, com o objetivo de dar mais transparência à pesquisa.

Manutenção da meta de inflação

Apesar de apoiar a revisão do cálculo, o ministro disse que não mexeria na meta de inflação, atualmente fixada em 3%. Ele avaliou que o mecanismo de alvo contínuo adotado pelo governo ainda não foi plenamente compreendido pela sociedade e por especialistas. A declaração ocorre em meio a dados recentes do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) divulgados pelo IBGE.

Em maio, a inflação oficial desacelerou para 0,58%, após marcar 0,67% em abril. Apesar da trégua mensal, a taxa de 0,58% é a maior para maio em cinco anos, desde 2021 (0,83%). No acumulado de 12 meses, o IPCA acelerou a 4,72%, superando o teto de 4,5% da meta perseguida pelo Banco Central, algo que não ocorria desde outubro do ano passado. As pressões vieram principalmente da carestia de alimentos e da energia elétrica.

Comparação com modelo americano

O vice-presidente Geraldo Alckmin voltou a defender que o Brasil adote um modelo semelhante ao do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, que exclui alimentos e energia do cálculo da inflação para definir a taxa de juros. “O problema que nós temos é essa taxa de juros absurdamente alta. Nós deveríamos verificar o modelo do Federal Reserve, que exclui energia e alimentação da análise da inflação para definição da taxa de juros”, afirmou Alckmin. O Fed monitora com atenção o núcleo do PCE (Índice de Preços para Gastos de Consumo Pessoal), que desconsidera itens voláteis.

Juros, câmbio e poupança

Ao comentar o nível elevado dos juros no país, Durigan apontou a volatilidade cambial e o baixo nível de poupança como fatores que impactam negativamente a política monetária. “A questão da poupança é um elemento importante, a volatilidade no mercado de câmbio brasileiro é outro mecanismo que a gente ouve muito, ainda que não se diga muito isso, tem um prêmio de risco que o Brasil tem que pagar para garantir alguma estabilidade”, disse. O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central se reúne nesta semana para decidir sobre a taxa básica de juros.

Política fiscal e pautas-bomba

O ministro reconheceu que a política fiscal influencia a política monetária e defendeu conter o avanço das despesas obrigatórias para abrir espaço a investimentos. Ele reiterou que o governo insistirá em negociações com o Congresso Nacional para evitar a aprovação de pautas-bomba — medidas de elevado impacto fiscal que poderiam pressionar a inflação, a carga tributária e os juros. Caso aprovadas, o governo, segundo Durigan, recorrerá a vetos e poderá acionar o Supremo Tribunal Federal (STF).

A equipe econômica estimou na semana passada que proposições em tramitação no Congresso somam impacto fiscal potencial de R$ 111 bilhões por ano. Entre as medidas estão uma ampla renegociação de dívidas rurais, elevação do teto do Simples Nacional e aumento de pisos salariais de categorias profissionais.