A série Vaza Flávio, do Intercept Brasil, obteve novos documentos que comprovam repasses financeiros do banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Uma planilha intitulada 'Funding Schedule' e um comprovante de transferência internacional (SWIFT) detalham pagamentos que somam 10,6 milhões de dólares (cerca de R$ 61 milhões na cotação da época) — valor inferior aos 24 milhões de dólares (R$ 134 milhões) negociados, mas que desmonta a tese de que não houve movimentação financeira.

Documentos comprovam repasses financeiros

Desde a primeira reportagem da série, aliados do senador Flávio Bolsonaro tentaram deslegitimar as revelações. O comentarista Paulo Figueiredo, por exemplo, escreveu no X: 'Começaram com o Intercept dizendo que eram 134 milhões do Vorcaro pro filme. Caiu para 61 milhões no Metrópoles. Depois, 2 milhões no Globo. Já já vocês vão descobrir que NÃO TEM dinheiro do Vorcaro no filme.' A alegação, já refutada, ignorava que a reportagem original distinguiu os valores negociados (24 milhões de dólares) dos efetivamente pagos (10,6 milhões de dólares).

Planilha detalha cronograma de pagamentos

A planilha 'Funding Schedule' registra uma operação de quase 24 milhões de dólares, com 14 desembolsos previstos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. As duas primeiras parcelas, de 2 milhões de dólares cada, foram previstas para 20 e 25 de janeiro, mas pagas em 13 de fevereiro e 24 de março. As demais 12 parcelas foram fixadas em 1,66 milhão de dólares cada; a primeira delas também em 24 de março, outras duas em 25 de abril e mais uma em 29 de maio. Ao final, o total recebido soma 10,6 milhões de dólares.

O documento foi enviado em 7 de agosto de 2025 pelo empresário Thiago Miranda a Daniel Vorcaro, com a observação: 'Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto'. Vorcaro respondeu: 'Segunda fazemos duas', sugerindo novos desembolsos. Meses antes, em 12 de março, Vorcaro havia compartilhado planilha semelhante com o pastor Fabiano Zettel, seu cunhado e operador financeiro, orientando: 'precisa me ajudar controlae isso' e 'tem que pagar a segunda e a terceira'. Zettel respondeu que cobraria 'Mineiro' — apelido de Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre Investimentos e Participações.

Comprovante bancário confirma transferência internacional

O comprovante SWIFT, datado de 13 de fevereiro de 2025, confirma a remessa de 2 milhões de dólares ao fundo Havengate Development Fund LP, controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. A transferência teve como remetente a Entre Investimentos e Participações Ltda, processada pelo Banco BS2, com destino a uma conta do Havengate no JPMorgan Chase Bank. O documento contém códigos de identificação e registros de liquidação do sistema financeiro internacional.

Mensagens entre Zettel e Vorcaro revelam dificuldades iniciais: o câmbio do Banco Master criava obstáculos, e optaram por usar a estrutura da Entre. Em 14 de fevereiro, um dia após a liquidação, Zettel enviou o comprovante a Vorcaro com a mensagem 'Filme!'.

Tentativas de deslegitimar as investigações

Apesar das negativas de aliados bolsonaristas, os documentos demonstram a conexão operacional entre Vorcaro e a Entre Investimentos. O Grupo Entre, em nota, afirmou que 'realiza suas operações em conformidade com as normas' e está 'à disposição das autoridades'. Procurados, Paulo Calixto, Thiago Miranda, Antônio Carlos Freixo Júnior e as defesas de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro (ambos presos) não se manifestaram até a publicação.

Próximos passos da investigação

Os documentos abrem novas frentes sobre a origem dos recursos e o destino do dinheiro. O Intercept segue apurando, cruzando informações com registros empresariais e novas fontes. Leitores podem colaborar enviando documentos pelos canais seguros do site.