Um documento interno da produção do filme Dark Horse, obtido com exclusividade pela Agência Pública, mostra que o argumento original da obra tinha como um dos principais objetivos atacar a imprensa e associá-la a uma suposta conspiração para assassinar Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral de 2018, quando ele foi esfaqueado por Adélio Bispo. Segundo três investigações da Polícia Federal (PF), Bispo agiu sozinho.
O argumento foi escrito pelo deputado federal Mário Frias Filho, que atualmente exerce mandato, e por Walther Neto, da WN Produções. No texto, a personagem antagonista é uma jornalista chamada Iara Lima, que teria ligações com o Partido Comunista, ajudado a guerrilha de Carlos Lamarca e criado desinformação para prejudicar Bolsonaro. O documento afirma que o filme buscava “atrair o público para a nossa história e traçar o desenvolvimento de um herói cristão, com foco em sua Missão Divina de transformar o povo brasileiro”.

Personagem da jornalista como inimiga
De acordo com o argumento, Iara Lima seria uma estudante de 18 anos na época da operação militar contra Lamarca, em 1975, filha de políticos influentes no Rio de Janeiro e ligada ao Partido Comunista. Ela teria fugido do cerco militar e “sempre acreditou que o jovem Jair foi um dos responsáveis pela morte de seus companheiros durante o ataque do exército no Vale do Ribeira, em SP”. Bolsonaro, no entanto, não teve nenhum papel no cerco, do qual Lamarca escapou.
O texto descreve Iara como alguém que “perdeu companheiros nessa batalha e tinha laços pessoais com organizações terroristas da época”. Anos depois, como jornalista, ela usaria sua “arma poderosa contra Jair”. “Suas histórias são usadas pela mídia para criticar, deturpar e distorcer a verdade. Ela é uma inimiga declarada de Jair”, diz o documento.

A construção da personagem incluía a “distorção” de discursos de Bolsonaro no início de sua carreira política. Iara “sempre escreve informações distorcidas sobre os fatos” e tentava “desacreditar” Bolsonaro criando estereótipos como “machista” e “tirano”.
Conspiração envolvendo a facada
O argumento descreve uma grande conspiração em torno do ataque de Adélio Bispo em 2018, com a participação da mídia, advogados e juízes. “Eles esconderam fatos e levaram desinformação à população. Adélio foi protegido pelos conspiradores, que tinham advogados poderosos e bem pagos prontos para defendê-los, e juntamente com magistrados, protegeram Adélio, impedindo que a Justiça investigasse minuciosamente o caso”, afirma o texto. A jornalista Iara Lima estaria envolvida nessa cobertura.

Um dos poucos diálogos do argumento mostra uma voz ao telefone dizendo: “Vamos acionar os advogados, nada pode vazar. A Iara vai avisar a imprensa para amenizar a ação do Adélio. Vamos dizer que ele tem transtorno mental. Vamos seguir normalmente, então fiquem calmos! Não há como eles nos alcançarem. Aquele homem não poderia ter sobrevivido!”
Processo de produção e alterações
O argumento foi enviado ao diretor e roteirista Cyrus Nowrasteh, que recebeu 57 mil dólares em 2024, pagamento que a produtora tentou enviar por meio de uma empresa húngara, conforme revelou a Agência Pública. Nowrasteh pediu mais detalhes sobre como os jornalistas cooperaram com a oposição e como encobriram o “assassinato”.
Walther Neto, que assina o argumento com Frias, afirmou que trabalhou no texto entre o final de 2022 e 2023 e não teve mais contato com a produção. Segundo ele, a personagem da jornalista foi uma das várias “antagonistas” criadas por sugestão de Frias, e a facada era um elemento menor na versão original. “Isso é uma liberdade e uma estratégia de roteiro e não tinha objetivo de representar toda a imprensa. É apenas uma alegoria e uma estratégia de criar antagonistas dentro de uma estrutura clássica de roteiro”, declarou. Neto disse ainda que não participou do roteiro final.
Mário Frias Filho foi procurado, mas não respondeu até a publicação.
Evolução para o roteiro final
No roteiro final, assinado por Cyrus Nowrasteh e seu filho Mark, a personagem Iara Lima foi substituída por Lara Clarke, descrita como uma “repórter atraente, opinativa e muito inteligente”, com ligação com o mandante da tentativa de assassinato. Ao final, Lara Clarke ajuda a identificar os “mandantes”.
Eduardo Bolsonaro assinou contratos como “financiador” do filme, Flávio Bolsonaro tinha conhecimento do planejamento, e Jair Bolsonaro vendeu sua história de vida para Mário Frias e Karina Ferreira da Gama, da produtora Go Up Entertainment. O argumento original, segundo a reportagem, evidencia a intenção de criminalizar a imprensa perante o público amplo.