O documentário 'Universo Circular', dirigido por Dácio Pinheiro em parceria com o Sesc TV, retrata a trajetória de Jocy de Oliveira, considerada pioneira da música eletrônica no Brasil. A pré-estreia ocorre neste sábado, na Estação Motiva Cultural, na Sala São Paulo, com apresentação da artista e bate-papo com o diretor.
O filme teve sua estreia internacional no festival IndieLisboa, em Portugal, e fará parte da programação do In-Edit, festival de documentários musicais no Brasil. A produção e supervisão sonora são de Paulo Beto, estudioso da obra de Oliveira. O documentário também será exibido em outros festivais nacionais e internacionais.
Jocy de Oliveira, que completou 90 anos em abril de 2025, mantém carreira ativa desde os anos 1950. Iniciou como pianista-intérprete, executando obras de compositores como Igor Stravinsky e Olivier Messiaen. Em 1960, gravou o álbum 'A Música Século XX de Jocy', com canções acústicas de letras políticas, posteriormente conhecido como um disco 'anti-bossa'. No ano seguinte, estreou 'Apague Meu Spot Light', primeiro espetáculo teatral sonorizado com música eletrônica no Brasil.
Ao longo da carreira, Oliveira lançou o álbum eletrônico 'Estórias Para Voz, Instrumentos Acústicos e Eletrônicos' e criou peças que descreve como 'óperas multimídia'. Apesar da relevância, seu legado permaneceu restrito a círculos acadêmicos e da música experimental. Em 'Diálogos com Cartas' (2014), ela escreveu: 'Ainda está por ser escrita a musicologia brasileira sob a ótica da mulher e da literatura de gênero.'
Nos anos 2010, sua obra foi redescoberta em plataformas digitais, levando a relançamentos por selos brasileiros e internacionais. Em 2017, o cineasta Dácio Pinheiro a entrevistou para o documentário 'Eletronica:Mentes' (2019). 'Fiquei fascinado. Percebi que havia um interesse muito maior nela como personagem', afirmou o diretor.
O documentário 'Universo Circular' utiliza entrevistas recentes e grande parte do acervo pessoal de Oliveira, incluindo fotos e gravações organizadas por ela. O fio condutor é a filmagem de bastidores de 'Noturno de um Piano', obra audiovisual em que um piano e sua intérprete submergem no mar. 'Colocar o piano ao centro do filme é uma maneira poética de falar sobre esse universo dela', disse Pinheiro.
A obra aborda a dimensão trágica do desaparecimento da arte erudita no mundo contemporâneo. Em uma cena, Oliveira afirma não acreditar mais em um futuro utópico. 'O hoje é um universo volátil, um tempo vazante pelas rachaduras no desvendar de uma travessia', declarou. A artista responde a essa volatilidade trabalhando em um universo de memórias entre ficção e realidade, o que chama de 'universo circular'. O longa conta apenas com a narração de Oliveira, além de breves aparições de seu companheiro e filho.
Com informações de Folha — Ilustrada.