O documentário Massa Funkeira, dirigido por Ana Rieper, integra a competição nacional do 18º In-Edit Brasil – Festival Internacional do Documentário Musical, que ocorre entre 17 e 28 de junho em São Paulo. Com 90 minutos de duração, o filme mergulha no universo do funk ousadia para mostrar as histórias de sobrevivência, trabalho e afirmação de seus personagens, frequentemente alvo de críticas superficiais.
O funk carioca surgiu nas favelas do Rio de Janeiro no início dos anos 1990, com o proibidão, que abordava o tráfico e a violência policial. Com o tempo, o gênero se diversificou: veio o funk melody, mais romântico, e, no início do século, o funk ousadia, com letras explícitas sobre sexo e sexualidade. Esse subgênero concentrou as críticas mais duras, muitas vezes sem contexto ou reflexão aprofundada.
Uma das personagens centrais do documentário é MC Dandara. Abandonada pela mãe aos 6 anos no Maranhão, passou por várias famílias e fugiu de casa após sofrer violência doméstica. Mudou-se para o Rio de Janeiro para ser cantora. Começou no funk consciente, mas foi orientada a investir em letras de sexo explícito. Hoje, aos 58 anos, aparece no filme trabalhando em uma vendinha, imagem que desloca o estereótipo e a devolve ao cotidiano concreto.
Outra pioneira, MC Nem, ficou conhecida pelos duelos com MC Kátia em uma música sobre infidelidade feminina. Gravada na comunidade do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, sua participação ganha tom íntimo quando ela mostra, emocionada, o filho adotado ainda pequeno — hoje já jovem. A cena humaniza a funkeira para além da performance.
O documentário também acompanha uma dançarina de funk, mãe de três filhos, que relata alívio com a morte do pai. Segundo ela, durante sua infância e adolescência, ele mantinha três mulheres em casa, atuava como cafetão e abusou dela e da irmã.
Participam ainda do filme Valesca Popozuda, Tati Quebra Barraco, MC Carol, DJ Rennan da Penha, Kevin O'Chris e Deize Tigrona, entre outros nomes do gênero. Os depoimentos, colhidos dentro das comunidades, revelam um funk que costuma ser julgado de fora, mas raramente escutado por dentro. Há dor, precariedade e violência, mas também liberdade, desejo, trabalho, invenção e luta pelo sustento diário.
Massa Funkeira enfrenta o preconceito não por negar as contradições do funk, mas por devolver complexidade a personagens frequentemente reduzidos ao escândalo.
Com informações de CartaCapital.