A disputa pelo eleitorado jovem nas eleições presidenciais brasileiras já mobiliza estratégias de campanha tanto da esquerda quanto da direita. Com 18,7 milhões de eleitores entre 16 e 24 anos, a chamada geração Z corresponde a 11,5% do total de 156,4 milhões de eleitores aptos a votar, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A importância desse segmento é amplificada pela diferença apertada que definiu a eleição de 2022, vencida por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por apenas 2,1 milhões de votos.

Desafios de cada lado

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil apontam obstáculos distintos para os dois campos. Para a esquerda, o principal desafio é reverter os baixos índices de aprovação do governo Lula entre os jovens e superar a resistência gerada pela idade de 80 anos do presidente. Já para a direita, o desafio é reverter a preferência momentânea que esse público demonstra por Lula e reduzir a rejeição ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) entre parte do eleitorado.

Ambos os lados também enfrentam dois desafios comuns: a aversão do jovem à polarização política e o tradicional descrédito em relação ao voto, que eleva a taxa de abstenção. Em 2022, a abstenção geral no segundo turno foi de 20,5%, enquanto entre os jovens chegou a 21,5%.

Pesquisas mostram cenário complexo

De acordo com pesquisa Datafolha divulgada em maio, no primeiro turno Lula venceria Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entre eleitores de 16 a 24 anos com 35% dos votos, contra 28% do senador. No segundo turno, a vantagem seria de 47% a 41%. No entanto, a mesma pesquisa revela que 50% dos jovens desaprovam o governo Lula, contra 45% que aprovam. Apenas 19% consideram o governo ótimo ou bom, contra 32% da média nacional.

A diretora do Datafolha, Luciana Chong, destacou a deterioração da avaliação presidencial nesse grupo: em março de 2023, 36% dos jovens consideravam o governo ótimo ou bom; em maio de 2025, o índice caiu para 19%. Já a avaliação ruim ou péssima subiu de 17% para 37%. Segundo Chong, os entrevistados verbalizam um mau humor generalizado e desconfiança em relação às instituições.

Entre os temas que mais preocupam os jovens, a economia é o principal, diferentemente da média geral, que aponta a saúde. Para Chong, os jovens percebem uma piora na sensação econômica e relatam falta de perspectiva.

Apesar disso, Lula venceria todos os adversários da direita no segundo turno entre os jovens, conforme o Datafolha. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro têm 46% de rejeição nesse segmento. Pesquisas indicam ainda que as mulheres jovens tendem a apoiar mais Lula, principalmente devido a políticas como o programa Pé-de-Meia e medidas de proteção contra violência doméstica, segundo o pesquisador Maurício Moura, do Instituto Ideia.

Estratégias de engajamento nas redes

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo no Instagram com 22,6 milhões de visualizações, no qual critica o governo e incentiva jovens a tirarem o título de eleitor. Ele afirmou à BBC News Brasil que antes só via mobilização da esquerda entre os jovens e que o cenário mudou.

Do lado petista, a Juventude do PT lançou a campanha "Brota na urna", com vídeos que obtiveram até 50 mil visualizações. A presidente do movimento, Julia Köpf, disse que a preocupação principal é com a abstenção e que a militância busca mostrar que a política vale a pena. Ela considera natural a disputa da direita pelo mesmo público.

Renan Santos e o "partido da geração Z"

O pré-candidato Renan Santos (Missão), 42 anos, fundador do MBL, busca se posicionar como alternativa jovem. No agregador de pesquisas da BBC News Brasil, ele aparece com 3% das intenções de voto, distante de Lula (40%) e Flávio (31%). No entanto, pesquisa AtlasIntel de maio mostra Santos liderando entre 16 e 24 anos com 36,1%, contra 28,2% de Lula e 24,5% de Flávio. Em outro cenário, sem Flávio, sua liderança sobe para 41,5%.

Yuri Sanches, da AtlasIntel, atribui a diferença em relação ao Datafolha à metodologia online, que deixaria os jovens mais à vontade para expressar preferências por candidatos menos conhecidos ou controversos, como Santos, que já defendeu o fim da presunção de inocência para suspeitos de facções criminosas.

Santos intensificou a atuação nas redes, com 513 anúncios nos últimos 30 dias na plataforma Meta, muitos direcionados a jovens de 16 a 24 anos. Em um deles, afirma: "O nome desse partido é Missão. É o partido da geração Z". Para Sanches, Santos cresce por se colocar como crítico tanto de Lula quanto de Flávio, oferecendo alternativa ao eleitor cansado da polarização. No entanto, ele precisa aumentar seu alcance para outros segmentos para se tornar competitivo.

Impacto do caso Banco Master

O caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, preso sob suspeita de fraudes bilionárias, tem potencial eleitoral. Áudio revelado pelo The Intercept Brasil mostra Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Flávio admitiu encontro com Vorcaro após sua soltura.

Pesquisa AtlasIntel de maio mostra que, entre os jovens, Flávio caiu 12,1 pontos percentuais em intenção de voto (de 36,6% para 24,5%), enquanto Lula se manteve estável (28,2%). Quase toda a migração foi para Renan Santos. Apenas 12,9% dos jovens acreditam na versão de Flávio, contra 33% da média geral.

No entanto, o mesmo levantamento indica que 66,3% dos jovens avaliam o governo Lula como ruim ou péssimo, um número ligeiramente inferior aos 69,4% de abril. A avaliação positiva caiu de 17,2% para 12,7%, enquanto a regular subiu de 13,5% para 21,2%.