A Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) interrompeu a participação em algumas avaliações de inteligência produzidas pelo gabinete do Diretor de Inteligência Nacional, incluindo aquelas relacionadas à guerra com o Irã, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. O motivo seriam disputas sobre compartilhamento de informações e áreas de responsabilidade.
Os conflitos internos entre a CIA e o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI) vêm se intensificando há mais de um ano, prejudicando a colaboração em análises de segurança nacional que historicamente orientam presidentes dos EUA em desafios de política externa, disseram uma autoridade americana e três pessoas com conhecimento direto da situação. As fontes falaram sob condição de anonimato.
No centro das divergências está um grupo de trabalho criado em abril de 2025 por Tulsi Gabbard, então diretora de Inteligência Nacional. A CIA, liderada pelo diretor John Ratcliffe, sustenta que o Grupo de Iniciativas da Diretora contornou protocolos tradicionais de compartilhamento e retirada de sigilo de informações. Já autoridades do ODNI afirmam que a CIA bloqueou sistematicamente o acesso do grupo a dados.
O rompimento da colaboração ocorre em momento delicado para o governo Trump, com os EUA envolvidos no conflito com o Irã e enfrentando desafios como a expansão militar da China e a guerra da Rússia na Ucrânia. O episódio sugere que reformas pós-11 de setembro, que criaram o cargo de Diretor de Inteligência Nacional para coordenar as 18 agências, não eliminaram disfunções do sistema.
Beth Sanner, ex-vice-diretora de Inteligência Nacional no primeiro mandato de Trump, afirmou que o ODNI deveria ser "o óleo que mantém funcionando as engrenagens" e que, sem isso, as agências podem se retrair para compartimentos isolados, aumentando o risco de falhas.
Gabbard anunciou na semana passada que deixará o cargo em 30 de junho, citando doença do marido. Trump nomeou Bill Pulte, chefe da Federal Housing Finance Agency, como diretor interino de inteligência nacional. A porta-voz do ODNI, Olivia Coleman, disse que as agências continuam fornecendo as melhores informações e que o Grupo de Iniciativas operou dentro das autoridades de supervisão. A porta-voz da CIA, Liz Lyons, afirmou que a agência avançou nas prioridades de Trump com riscos calculados para dar vantagem aos EUA. O porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, declarou que Trump tem plena confiança em sua equipe de segurança nacional.
Menos cooperação em avaliações de inteligência
A decisão da CIA de reduzir contribuições para avaliações do Conselho Nacional de Inteligência (NIC) é uma das consequências mais graves da desconfiança mútua. A CIA era uma das principais responsáveis pelos relatórios do NIC, que têm grande relevância em tempos de guerra. Duas fontes afirmaram que avaliações sobre o Irã — onde militares dos EUA estão envolvidos desde fevereiro — estão entre as que a agência deixou de participar regularmente.
Em determinado momento, a CIA deixou de publicar relatórios do NIC no serviço interno de distribuição que controla, limitando temporariamente o acesso. Uma autoridade americana disse que os relatórios foram retidos por "algumas horas" devido a um "problema de processamento".
O atrito começou logo após Gabbard assumir em fevereiro de 2025. Ela passou a ter controle mais rigoroso sobre o briefing de inteligência diário para o presidente, papel tradicionalmente liderado pela CIA. A relação se deteriorou com a criação do Grupo de Iniciativas da Diretora para "erradicar" suposta politização. O grupo também trabalhou para retirar sigilo de documentos sobre o assassinato de John F. Kennedy, investigar segurança de urnas eletrônicas e origens da COVID-19.
Críticos, incluindo ex-funcionários, afirmam que o grupo foi criado para retaliação contra adversários políticos de Trump. Membros da força-tarefa pressionaram a CIA por informações, mas acreditavam não ter recebido material suficiente.
Demissão de agentes da CIA
Em maio de 2025, Gabbard afastou dois altos oficiais da CIA que lideravam o NIC. Um funcionário de inteligência afirmou que eles foram removidos por criar ambiente de trabalho tóxico e politizar a inteligência, sem apresentar evidências. Em agosto, Gabbard revogou autorizações de segurança de 37 funcionários, revelando a identidade de um agente secreto da CIA no exterior. Ela os acusou de politizar e vazar informações, sem provas. Ex-funcionários disseram que a medida foi retaliação por uma avaliação de 2017 sobre interferência russa na eleição de 2016.
As tensões vieram à tona no mês passado, quando um agente da CIA destacado para o Grupo de Iniciativas disse a um comitê do Senado que a agência bloqueou o acesso a informações sobre as origens da COVID-19. A disputa desencadeou investigação do inspetor-geral da comunidade de inteligência, cuja extensão não foi determinada.
Com informações de CNN Brasil.